Vivo com pressa a maior parte do tempo — trabalho com prazo, viagem com roteiro cronometrado, refeição resolvida em vinte minutos. Foi talvez por isso que fiquei obcecada, nos últimos meses, em procurar exatamente o oposto: comida que ainda exige tempo de verdade para ficar pronta. Fui atrás disso em Bichinho, Cunha e Morretes, e voltei das três cidades entendendo por que às vezes vale a pena esperar.
Não escolhi essas três cidades ao acaso. Pesquisei especificamente por lugares onde o fogão a lenha ainda fosse regra, não exceção decorativa para atrair turista — e onde os pratos mais tradicionais continuassem sendo feitos do jeito difícil, demorado, sem versão rápida disponível no cardápio. Encontrei isso nas três, cada uma à sua maneira.
Bichinho, o distrito de Tiradentes que ninguém filma para o Instagram
Tiradentes é conhecida — talvez até conhecida demais, com suas ruas de pedra sempre cheias e seus restaurantes badalados. Mas fui atrás de outra coisa, num pequeno distrito ali perto chamado Bichinho, oficialmente Vitoriano Veloso, onde encontrei o que realmente procurava: cozinhas de fogão a lenha ainda em uso diário, não como cenário, mas como ferramenta de trabalho de verdade.
Sentei numa mesa de família e pedi tutu de feijão, lombo na banha de porco e galinha caipira ao molho pardo, tudo preparado ali na hora, no fogo de lenha que crepitava a poucos metros da mesa, enchendo o ambiente inteiro com um cheiro de fumaça e temperos que nenhum fogão elétrico consegue reproduzir. A senhora que cozinhava me explicou, sem parar de mexer a panela, que cozinha daquele jeito porque é assim que aprendeu com a mãe — e porque, segundo ela, “gás nenhum dá o mesmo gosto”. Não discuti nem um pouco. Terminei a refeição com doce de leite e goiabada acompanhados de queijo artesanal, e saí de lá adiando de propósito minha volta para Tiradentes só para esticar mais um pouco a tarde. Andei pelas ruas simples de Bichinho, quase sem comércio voltado para turista, e pensei em como é raro encontrar hoje em dia um lugar tão perto de um destino turístico famoso que ainda conseguiu ficar de fora do circuito principal.
Cunha e a paciência da montanha
De Minas segui para Cunha, no interior de São Paulo, encravada na Serra do Quebra-Candeia. Ali a lógica é parecida, mas o cenário muda: virei conhecida, em poucos dias, das propriedades privadas espalhadas pela região que abrem a cozinha para visitantes, servindo comida caipira robusta com vista para as montanhas ao redor.
Provei trutas criadas e preparadas ali mesmo, sem nenhuma pressa entre a pesca e o prato, além de massas caseiras feitas à mão que demoravam o dia inteiro para ficar prontas, desde o preparo da massa até o molho que cozinhava lento numa panela à parte. Um detalhe que me chamou atenção: o pinhão aparecia em quase tudo, de acompanhamento a recheio, sempre preparado com processos que exigem tempo — nada de atalho industrial. Fiquei hospedada numa dessas propriedades por dois dias e percebi que ali a cozinha literalmente dita o ritmo da casa inteira. Numa das manhãs, acordei cedo demais e acabei ajudando, sem muita habilidade, a sovar a massa que viraria o almoço só horas depois — e entendi na prática por que “comida rápida” simplesmente não é um conceito que existe naquelas cozinhas.
Morretes e as doze horas de barreado
Se em Bichinho e Cunha o tempo já era um ingrediente importante, em Morretes, no litoral do Paraná, ele virou praticamente o protagonista. Fui atrás do barreado, prato símbolo da cidade, que exige mais de doze horas de cozimento lento numa panela de barro bem vedada, até a carne se desfazer completamente dentro do próprio caldo.
Cheguei ao restaurante de manhã e o barreado já estava cozinhando havia horas — provavelmente desde a noite anterior. Almocei ali no fim do dia, a carne desmanchando junto com farinha de mandioca e banana-da-terra, prato tradicionalmente servido em porções generosas para dividir. Perguntei ao dono do restaurante se valia a pena tanto tempo de preparo, e ele só riu e respondeu que “quem tem pressa não gosta de barreado” — frase que resumiu bem o espírito da cidade inteira, encostada entre a Serra do Mar e o litoral, sem pressa nenhuma de acompanhar o ritmo de fora. Fiquei por ali até o fim da tarde, andando pelo centro histórico simples, vendo o movimento tranquilo de quem mora numa cidade pequena e não parece nem um pouco incomodado por isso.
O que ficou dessa viagem
Bichinho, Cunha e Morretes não têm exatamente a mesma culinária, mas compartilham uma filosofia parecida: a ideia de que certos sabores simplesmente não existem sem tempo de preparo, e que apressar o processo tira algo essencial do resultado final. Em nenhuma das três cidades encontrei comida “rápida” de verdade — mesmo o café da manhã mais simples vinha com pão ainda quente do forno a lenha.
Se você também gosta desse tipo de viagem gastronômica, um conselho prático: avise com antecedência quando for comer algo que exige preparo longo, como o barreado de Morretes — muitos lugares só fazem sob encomenda ou em horários específicos, exatamente porque não dá para simplesmente “acelerar” a receita. E reserve tempo de sobra no seu próprio roteiro. Comida que demora para ficar pronta pede também um viajante disposto a demorar para comer — sem olhar o relógio, sem pressa de ir para a próxima parada.
Voltei dessa viagem sem nenhuma receita anotada em detalhes — nenhuma das cozinheiras me passou proporção exata de nada, e acho que nem saberiam explicar em medidas certas. O que trouxe foi outra coisa: a lembrança de que existe um tipo de sabor que só aparece quando alguém decide, de propósito, não ter pressa nenhuma.




