Cheguei em Bariloche sem saber ao certo o que esperar de uma cidade descrita, ao mesmo tempo, como “a Suíça da América do Sul” e “a capital do chocolate”. Levei uma tarde de Circuito Chico para entender: aqui, montanha, lago e doce não são atrações separadas, são a mesma paisagem vista de ângulos diferentes. Passei cinco dias indo de mirante em mirante e de vitrine em vitrine, e voltei entendendo por que essa é uma cidade que muda de roteiro conforme a estação do ano, mas nunca perde a graça.
Uma cidade para qualquer estação do ano — desde que você escolha certo
Quando falo em “estação” aqui, é estação do ano mesmo — verão, outono, inverno e primavera —, porque em Bariloche cada uma muda completamente o que você vai fazer, não só o clima. A cidade fica às margens do Lago Nahuel Huapi, na Patagônia argentina, cercada por montanhas que viram pista de esqui no inverno (junho a outubro) e trilha de trekking no verão (dezembro a março). No outono, entre abril e maio, os bosques ao redor do lago pegam fogo de cor — foi a época que mais me surpreendeu, com menos turistas e preços mais baixos. Já a primavera, de setembro a novembro, traz o degelo e as trilhas reabrindo aos poucos.
Foi essa dualidade entre neve e trilha que mais me chamou atenção: o mesmo Cerro Catedral que em julho recebe esquiadores, em janeiro vira ponto de partida para caminhadas com vista para o lago. Decida primeiro o que quer fazer — isso muda o roteiro mais do que qualquer outra coisa.
Como cheguei e onde escolhi ficar
Pousei no Aeroporto Internacional Teniente Luis Candelaria, a cerca de 13,5 km do centro. Fiz o trajeto de táxi, em uns 20 a 25 minutos; quem viaja mais econômico pode pegar o ônibus da linha 3 Lago, que demora de 40 a 50 minutos e exige cartão SUBE, ou reservar um transfer compartilhado com antecedência. Para explorar o Circuito Chico por conta própria, vale alugar carro já no aeroporto.
Escolhi ficar no centro nos dois primeiros dias, perto da Calle Mitre e suas chocolaterias, e depois me mudei para um hotel na Avenida Bustillo, mais perto do Circuito Chico e com vista para o lago — uma pequena mudança de bairro que valeu muito a pena. Para quem vai esquiar, hospedar-se perto do Cerro Catedral reduz o deslocamento diário até as pistas. Já quem sonha com uma experiência mais isolada encontra em Llao Llao pousadas e resorts (inclusive o lendário Llao Llao Resort), a mais de 20 km do centro — ali, carro é praticamente obrigatório.
Dia 1: primeiro contato com o centro e o primeiro chocolate quente
Passei a manhã de chegada caminhando pela Calle Mitre, a rua principal do centro, catedral ao fundo. Entrei na Mamuschka, com sua decoração de bonecas russas, só para “dar uma olhada” e saí quarenta minutos depois com um chocolate quente cremoso e uma sacola de bombons a granel. Segui até a Rapa Nui, que funciona até depois da meia-noite e serve fondue individual, e guardei a Abuela Goye, famosa pelo alfajor artesanal, para o dia seguinte. Se eu tivesse que escolher só uma parada nesse primeiro contato com a cidade, seria essa: caminhar devagar pela Mitre sem pressa de decidir qual chocolate é o melhor.
Dia 2: o Circuito Chico, ou como Bariloche resume a si mesma em uma tarde
Reservei um passeio de meio período pelo Circuito Chico — importante deixar claro que é um passeio terrestre, feito de van de turismo por uma estrada que acompanha a costa do Lago Nahuel Huapi, e não um passeio de barco. O trajeto tem cerca de 60 km e, em cinco horas, passei pelo Cerro Campanario — que tantos descrevem como uma das melhores vistas do mundo, e que ali, no alto, entendi por quê —, pelo Hotel Llao Llao, com sua arquitetura inconfundível, e pela Capilla San Eduardo. É possível fazer o mesmo roteiro de carro alugado, parando onde e quando quiser. Levei dinheiro em pesos argentinos separado para as entradas cobradas à parte, principalmente a do teleférico do Cerro Campanario.
Existe também um passeio de barco de verdade pelo Lago Nahuel Huapi, saindo de Puerto Pañuelo até a Isla Victoria e o Bosque de Arrayanes — esse sim náutico, separado do Circuito Chico, para quem quiser ver o lago por dentro e não só pela margem.
Dia 3: Cerro Otto e a confeitaria que gira
No terceiro dia, subi o Cerro Otto de teleférico — cabines fechadas para até 4 pessoas, uns 12 minutos de subida com vista cada vez mais ampla do lago e da cordilheira. No topo, almocei na Confeitaria Giratória, um restaurante panorâmico de 360 graus que completa a volta a cada 20 minutos; Comi um strudel de maçã com um chocolate quente — e o melhor de tudo foi degustar essas delícias olhando a paisagem inteira sem precisar levantar da cadeira.
Dia 4: Cerro Catedral, o dia que muda com a estação
Fui em pleno inverno, então esse dia foi sobre esqui: mais de 50 pistas espalhadas por uma diferença de altitude de cerca de mil metros, entre a base a 1.030 m e o topo a 2.050 m. Comecei nas pistas verdes de Plaza Catedral, mais suaves, e fui ganhando confiança conforme o dia passava. Quem for no verão encontra um cenário completamente diferente: trilhas de trekking de vários níveis (a subida ao Refúgio Frey é a mais desafiadora, dizem, e também a mais recompensadora), passeios de mountain bike e o mesmo teleférico levando quem só quer a vista. O Cerro Catedral fica a cerca de 19 km do centro; num dia de neve, o transfer organizado foi a escolha mais tranquila.
Dia 5: tempo de sobra para repetir o que eu mais gostei
No último dia, sem compromisso marcado, voltei à Calle Mitre para levar chocolate de presente e passei pela Fenoglio, a chocolataria mais antiga da cidade, com museu do chocolate na Avenida Bustillo. Percebi ali que, depois de quatro dias correndo atrás de mirante, neve e paisagem, o dia mais desocupado de todos acabou sendo o que mais guardei na memória.
Antes de fechar a mala: qual estação combina com você
Se você ainda está decidindo quando ir, aqui vai o resumo que eu queria ter lido antes da viagem:
- Inverno (junho a outubro): esqui no Cerro Catedral, preços mais altos e cidade cheia de brasileiros.
- Verão (dezembro a março): trekking, mountain bike e sol até tarde — reserve tudo com antecedência, é alta temporada.
- Outono (abril e maio): minha favorita, mesmo sem planejar assim. Bosques alaranjados, menos gente, diárias melhores — só que o teleférico do Cerro Otto fecha em maio para manutenção.
- Primavera (setembro a novembro): trilhas reabrindo aos poucos, degelo e cascatas cheias, com menos movimento que no verão.
Levei o RG dentro da validade de emissão — brasileiros entram na Argentina com RG emitido há menos de 10 anos e em bom estado, ou com passaporte; documentos digitais e CNH não são aceitos. Desde 2024, o seguro viagem com cobertura médica também é exigência legal, então contratei o meu antes de embarcar. Meu conselho para quem for depois de mim: decida a estação antes de decidir a mala, porque um Cerro Catedral em janeiro e um em julho são praticamente dois destinos diferentes — e todos eles merecem a viagem.




