O primeiro acarajé eu comi de pé, no Largo de Santana, ainda tentando entender por que uma fila tão grande se formava na frente de uma única baiana de branco. Levei um mordida e entendi: aquilo não era só um bolinho frito, era uma aula de história resumida numa casca crocante de dendê. Passei os quatro dias seguintes em Salvador perseguindo esse tipo de descoberta — e voltei com a certeza de que essa é uma cidade que se entende melhor pelo prato do que pelo mapa.
Uma cidade que se prova, não só se vê
Salvador foi fundada em 1549 e foi a primeira capital do Brasil, mas o que mais me marcou não estava nas placas históricas, estava na mesa. O dendê, o leite de coco, o coentro e a pimenta contam a história do encontro entre as cozinhas africana, portuguesa e indígena de um jeito que nenhum museu consegue igualar. A moqueca, o bobó de camarão, o abará, os doces de coco — cada prato ali carrega um pedaço de gente que atravessou oceanos, à força ou por escolha, e deixou sua marca na panela.
Como cheguei e onde fiquei
Desembarquei no Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo Magalhães, que fica na região norte da cidade, na divisa com Lauro de Freitas. Do aeroporto até o Rio Vermelho, bairro que escolhi para me hospedar, o aplicativo levou cerca de 40 minutos. Existe uma opção mais econômica, o metrô da Linha 2, com um ônibus gratuito que liga o terminal à estação — só que ele não chega às áreas de hotéis, então de qualquer forma seria preciso completar o trajeto de carro.
Escolhi o Rio Vermelho por instinto, e não me arrependi: é um bairro boêmio, com os acarajés mais disputados da cidade a poucos passos da porta do hotel, e ainda assim a uma corrida curta do Pelourinho. Se eu tivesse priorizado dormir dentro da história, teria ficado no Centro Histórico, entre o Elevador Lacerda e os barcos — só vale saber que por lá algumas ruas esvaziam à noite, e o aplicativo vira necessidade, não opção. Quem busca praia urbana e mais estrutura tem a Barra e Ondina como alternativa. De qualquer bairro escolhido, vale reservar com bastante antecedência: as diárias disparam no Carnaval e no réveillon.
O dia em que subi e desci a cidade
No primeiro dia, entendi por que o Elevador Lacerda é tratado como símbolo de Salvador antes de ser tratado como transporte. Ele liga a Cidade Baixa à Cidade Alta desde 1873, e a vista da Baía de Todos os Santos lá de cima já valeria a viagem sozinha. Desci a pé até o Pelourinho, devagar, parando na Praça da Sé e na Igreja e Convento de São Francisco, cujos altares dourados brilham de um jeito que fotografia nenhuma reproduz direito. Almocei no Sorriso da Dadá, ligado à cozinheira que inspirou receitas nos livros de Jorge Amado — pedi a moqueca sem hesitar, e entendi ali por que tanta gente fala dela com reverência. À tarde, desci de novo ao Mercado Modelo para ver o artesanato e terminei o dia vendo o sol se apagar sobre a baía, sentada num muro qualquer, sem pressa de ir embora.
Fitinhas, sorvete e um pôr do sol inesperado
O segundo dia começou na Basílica do Senhor do Bonfim, e confesso que fui mais pelo cartão-postal do que pela fé — mas saí de lá tocada de um jeito que não esperava. Dei os três nós tradicionais na fitinha, fiz meus pedidos baixinho e evitei os ambulantes que amarram a fita no seu pulso sem avisar que vão cobrar depois; comprei a minha numa lojinha, por precaução. Segui para os bares da Pedra Furada, no Monte Serrat, onde comi outra moqueca — cada uma tem seu jeito, percebi, e nenhuma é igual à anterior — e fechei a tarde na Sorveteria da Ribeira, tradição que ninguém em Salvador deixa passar batido. O final do dia guardei para a Ponta do Humaitá, e o pôr do sol de lá entrou para a minha lista de melhores do Brasil sem nem eu esperar.
O dia que era sobre acarajé, mas virou sobre Jorge Amado
O terceiro dia foi o que mais me aproximou da Bahia de Jorge Amado. Visitei a Casa do Rio Vermelho, última residência dele e de Zélia Gattai, onde a cozinha da casa conta tanto quanto a biblioteca. Almocei a “poqueca” — moqueca assada na folha de bananeira — no Dona Mariquita, e só à tarde fui atrás do motivo que tinha me trazido até ali: o acarajé do Largo de Santana, entre as baianas Cira, Dinha e Regina. Não escolhi uma só; fui provando um pedaço de cada barraca, comparando o vatapá, o camarão, o ponto do dendê. Fechei o passeio na Vila Caramuru, antigo Mercado do Peixe, entre bares que pareciam não ter pressa nenhuma de fechar.
Um dia de mar para descansar da comida
No quarto dia, depois de três dias comendo sem parar, o mar pediu passagem. Peguei a escuna que sai do Terminal Marítimo, ao lado do Mercado Modelo, num passeio de 8 a 9 horas até a Ilha dos Frades e Itaparica. Nadei na Ponta de Nossa Senhora de Guadalupe com uma água tão clara que parecia exagero de photoshop, e almocei à beira-mar em Itaparica sem pressa de voltar. Paguei cerca de R$ 100, fora taxas de acesso e do porto, e recomendo perguntar tudo isso antes de fechar a reserva, porque o valor final costuma vir maior do que o anunciado.
O que eu levaria de novo (e o que eu faria diferente)
Se fosse repetir a viagem, levaria sapatos mais baixos desde o primeiro dia — as ladeiras de paralelepípedo do Centro Histórico não perdoam salto nem sandália rasteira sem sola firme. Pediria a pimenta sempre à parte, porque descobri, à custa de uma língua ardendo por minutos, que o dendê já traz tempero suficiente para quem não está acostumado. E teria reservado o passeio de escuna com mais antecedência, porque cheguei a ver gente sendo recusada por falta de vaga na alta temporada.
Uma coisa eu não mudaria: ter deixado o Rio Vermelho para o meio da viagem, quando eu já tinha provado moqueca em outros lugares e conseguia notar as diferenças. Comparar é, no fim, a melhor forma de aprender a gostar de um prato de verdade.
Salvador não me deu só fotos de igreja e praia — me deu um mapa de sabores que ainda sinto na memória. Se um dia você for, deixe fome sobrando nos quatro dias. Vai precisar dela.




