O avião ainda estava fazendo a curva final quando o homem no banco ao lado apertou minha mão sem eu esperar e disse só: “prepare o coração”. Achei exagero de turista. Não era. Quando a ilha inteira apareceu pela janelinha — aquele verde impossível cercado por um azul que parece mentira —, entendi por que ele fez questão de avisar. Cinco dias depois, na volta, entendi também por que tanta gente que conheci por lá chorou no aeroporto na hora de embarcar. Eu quase chorei também.
Uma ilha que cobra para continuar sendo assim
Antes de contar o que vivi, preciso contar uma coisa que resolvi ainda em casa, semanas antes de embarcar: Noronha cobra para você entrar, e é bom fazer isso com calma, não no desespero da chegada. São duas taxas separadas, e os valores mudam com frequência, então o certo é sempre consultar o valor atualizado direto na fonte oficial, na hora de planejar. A TPA (Taxa de Preservação Ambiental) se paga no site oficial do governo de Pernambuco, o SIN — Sistema Integrado de Noronha (sin-web.noronha.pe.gov.br) —, calculada por pessoa e por dia de estadia. O ingresso do Parque Nacional Marinho, administrado pelo ICMBio, se compra no site oficial do parque (tickets.parnanoronha.com.br) e dá acesso a praias como Sancho e Baía dos Porcos, valendo por 10 dias corridos. Paguei as duas com cartão, direto do celular, ainda no Brasil continental, e recebi um comprovante em PDF com QR code, cobrado junto com o documento no desembarque — vale salvar o PDF, porque o sinal de internet na ilha nem sempre coopera.
Fiquei incomodada com o valor no início. Mudei de ideia no segundo dia, quando percebi que aquela cobrança é o motivo de a ilha não ter shopping, nem prédio alto, nem fila de barraca de picolé em cada esquina. A taxa parou de ser custo e virou ingresso — o mais justo que já paguei numa viagem.
O dia em que aprendi a andar devagar
Cheguei via Recife, um voo curto que nem deu tempo de eu me arrumar mentalmente para o que vinha. Já na Vila dos Remédios, onde me hospedei, entendi o ritmo da ilha em menos de uma hora: ninguém anda com pressa, os buggys sobem as ladeiras devagar, e o comércio some do mapa quando o sol começa a baixar, porque todo mundo — moradores e turistas — está a caminho do Alto do Forte para ver o pôr do sol. Fui também. Sentei numa pedra qualquer, do lado de gente que eu nunca tinha visto antes, e ninguém falou nada por uns bons minutos. Foi meu primeiro dia e eu já sabia: aquele silêncio compartilhado ia se repetir todas as tardes.
O medo bom da Baía do Sancho
No segundo dia desci a escada estreita, quase vertical, cravada na rocha até a Baía do Sancho. Confesso que hesitei no primeiro degrau — treme as pernas, principalmente para quem tem medo de altura, como eu. Mas a cada degrau, a água ficava mais visível lá embaixo, e o medo virava uma ansiedade boa, dessas que só acontecem quando a gente sabe que está prestes a ver algo inesquecível. Mergulhei entre as pedras e os peixes pareciam flutuar no ar, de tão transparente que estava o mar. Mais tarde, do mirante da Baía dos Porcos, ao lado dos Dois Irmãos, olhei a mesma paisagem de outro ângulo e pensei: como um lugar consegue ser lindo de tantos jeitos diferentes ao mesmo tempo?
À tarde, completei com um mergulho de cilindro, contratado por cerca de R$ 1.150 (o valor varia até R$ 1.500, conforme o ponto de mergulho). Foram quase quatro horas, entre briefing, deslocamento de barco e a descida em si — e vi de perto cardumes que, de snorkel na superfície, eu nunca teria alcançado.
Um passeio de barco em volta da ilha, e o dia das tartarugas
No terceiro dia, reservei o passeio de barco em volta da ilha — o mais tradicional de Noronha, com saída da Praia do Porto. Optei por um passeio compartilhado, entre R$ 300 e R$ 800 por pessoa dependendo da operadora; embarcações privativas custam mais, mas dão liberdade para escolher pontos de parada. Fui pela manhã, horário recomendado por causa do mar mais calmo e da luz melhor para fotografar as falésias. Vimos um grupo de golfinhos-rotadores brincando na proa do barco por um bom tempo — um daqueles momentos que ninguém combina, só tem sorte de estar ali na hora certa —, e paramos por cerca de 40 minutos para nadar numa enseada tranquila.
À tarde, fui à Praia do Sueste numa sexta-feira de propósito, porque é quando o Projeto Tamar costuma fazer o monitoramento das tartarugas marinhas. Vi os pesquisadores trabalhando, com um cuidado que me emocionou mais do que eu esperava, e depois entrei na água com um guia para nadar por cima delas, de snorkel. Uma tartaruga passou tão perto de mim que consegui ver o desenho do casco, cada arranhão de quem sabe quantos anos de oceano. Fiquei parada na água, só olhando, com a sensação estranha de estar sendo uma visita — não a dona do lugar — na casa de um bicho que estava ali muito antes de qualquer turista pisar na ilha.
O dia em que o mar decidiu o roteiro por mim
No quarto dia aprendi que em Noronha quem manda é a maré, não o relógio. Fui à Trilha do Atalaia, que exige guia obrigatório e tem acesso controlado por horário e limite diário — reservei com uns três dias de antecedência, direto com um guia credenciado na Vila dos Remédios, porque as vagas somem rápido na alta temporada. A trilha é curta, mas termina numa piscina natural que, com a maré baixa certa, vira um aquário de verdade: corais, peixes coloridos e uma água tão parada que dá para ver tudo sem nem mergulhar de cabeça. Caminhar devagar por ali foi um dos momentos mais silenciosos e bonitos da viagem. Terminei o dia na Cacimba do Padre, vendo o sol descer entre os Dois Irmãos, o cartão-postal que todo mundo posta e que, de perto, ainda emociona mais do que qualquer foto.
O último dia, o mais difícil de todos
Deixei o quinto dia livre, sem passeio marcado, entre as praias urbanas do Cachorro e da Conceição. Foi o dia mais tranquilo e, ao mesmo tempo, o mais difícil, porque cada hora que passava eu sabia que estava mais perto de ir embora. Sentei num bar de areia, pedi uma água de coco e fiquei ali, sem pressa, tentando gravar aquele mar na memória de um jeito que nenhuma foto consegue guardar.
O que eu levaria de novo
Pagaria as duas taxas — TPA no site do governo e ingresso do parque no site do ICMBio — pelo menos uma semana antes de embarcar, com tudo salvo em PDF, sem depender do sinal de internet da ilha. Reservaria a Trilha do Atalaia e o mergulho de cilindro com mais antecedência ainda, porque as vagas diárias são limitadas de propósito. E, se pudesse escolher de novo a época, voltaria entre agosto e novembro, quando o mar fica mais calmo para os passeios de barco.
No aeroporto, na hora de embarcar, entendi finalmente o aperto de mão daquele homem no voo de ida. Não é exagero avisar alguém para preparar o coração antes de conhecer Fernando de Noronha. É o conselho mais sincero que alguém pode te dar.
Informações práticas
- Onde pagar as taxas: TPA no site do governo de Pernambuco (SIN — sin-web.noronha.pe.gov.br) e o ingresso do Parque Nacional Marinho no site oficial do ICMBio (tickets.parnanoronha.com.br), pagos por cartão, com comprovante em PDF/QR code exigido no desembarque.
- Mergulho de cilindro: R$ 1.150 a R$ 1.500, cerca de 4 horas.
- Passeio de barco: R$ 300 a R$ 800 por pessoa (compartilhado), pela manhã para mar mais calmo.
- Trilha do Atalaia: guia obrigatório, reserva com antecedência por vagas diárias limitadas.
Valores sujeitos a reajuste — consulte sempre os sites oficiais antes de viajar.




