Tem paisagem que engana o olho. Você está no Brasil, claro, mas por um segundo o cérebro insiste que aquilo não pode ser aqui — parece foto de outro continente, roteiro de outro país, cenário emprestado. Nos últimos meses fui atrás de três desses lugares justamente para entender se a sensação se sustentava de perto. Sustentou, e ainda me pegou de surpresa mais de uma vez.
São José dos Ausentes, na Serra Gaúcha
Comecei em São José dos Ausentes, no alto da Serra Gaúcha, Rio Grande do Sul. Cheguei ainda de madrugada, no frio que só quem já esteve lá no inverno sabe descrever, e o que vi ao amanhecer foram campos ondulados cobertos de neblina baixa, quase nenhuma árvore alta cortando a paisagem, só relevo suave se perdendo no horizonte. Caminhei até a borda de um cânion enorme bem na hora em que o sol começava a furar a névoa, e por um instante — sério, só por um instante — tive a sensação exata de estar em algum lugar das terras altas da Escócia. Não tem elemento tropical ali que desmonte a ilusão: é campo, é névoa, é silêncio.
Fiquei hospedado numa propriedade rural que recebe viajante de vez em quando, mais como extensão da rotina da família do que como negócio de turismo organizado, e no fim da tarde ajudei, sem muita habilidade, a reunir um pequeno rebanho de ovelha que tinha se espalhado pelo campo. O dono da terra riu da minha falta de jeito e me contou que cresceu ali vendo a neblina descer todo santo dia da mesma forma, sem nunca ter achado aquilo estranho — só entendeu que era raro quando começou a receber gente de fora pedindo para fotografar o próprio quintal dele.
Urubici, no planalto catarinense
De lá segui para Urubici, em Santa Catarina, outro lugar que brinca com clima e altitude de um jeito raro no Brasil. É uma das regiões mais frias do país, com direito a geada praticamente garantida no inverno e neve em anos mais rigorosos. Subi até um dos pontos mais altos para ver o nascer do sol, enrolado em quantidade de roupa que eu normalmente nunca uso em nenhuma viagem por aqui, e o vilarejo lá embaixo, com suas casinhas de telhado inclinado emergindo aos poucos da neblina, parecia recorte de vilarejo alpino europeu. Tomei um chocolate quente numa cafeteria pequena enquanto via o dia clarear devagar sobre as montanhas — e por mais que eu soubesse exatamente onde estava, uma parte de mim insistia em duvidar.
À tarde desci até uma propriedade que cultiva morango e outras frutas de clima frio, coisa incomum em boa parte do Brasil, e o produtor me explicou como calcula a época de geada para proteger a plantação, um conhecimento bem específico daquela altitude e daquele microclima. Ele mesmo comentou, meio de brincadeira, que às vezes esquece que mora num país tropical — e olhando para as montanhas cobertas de uma névoa espessa e gelada ao fundo, ficou fácil entender por quê.
Jalapão, no Tocantins
O terceiro destino foi o mais radical em contraste. Depois do frio de Urubici, Depois do frio de Urubici, cheguei a um cenário de dunas alaranjadas se espalhando até onde a vista alcança, vegetação de cerrado resistente e um calor seco que muda completamente o ritmo do corpo. A comparação mais fácil é com algum deserto do norte da África, e não é força de expressão — as dunas realmente lembram, na cor e na forma, paisagens que a gente só espera ver em documentário sobre o Saara. O que salva o Jalapão de ser só um deserto bonito são os fervedouros: nascentes de água cristalina tão fortes que empurram a pessoa de volta para a superfície, é fisicamente impossível afundar. Fiquei boa parte de uma tarde flutuando sem esforço nenhum num desses fervedouros, olhando para o céu absurdamente aberto, tentando entender como aquele lugar existe dentro do mesmo país onde eu estive na Serra Gaúcha dias antes.
No fim daquele dia, um morador da região que trabalha como guia me levou até o alto de uma das dunas maiores bem na hora do pôr do sol, e o vento levantando areia fina contra a luz alaranjada criou uma cena que eu simplesmente não tinha vocabulário pronto para descrever — só ficava repetindo mentalmente que aquilo parecia imagem de documentário sobre lugar nenhum daqui. Ele contou que cresceu ali vendo turista chegar cada vez mais impressionado com uma paisagem que, para quem é da região, sempre foi só o quintal de casa.
Antes de deixar o Jalapão, ainda parei numa vila próxima onde famílias produzem artesanato com capim dourado, uma fibra que só nasce naquela região do cerrado depois das primeiras chuvas. Uma artesã me mostrou o processo inteiro — colher, secar ao sol no ponto certo, trançar em peças que brilham como fio de ouro — e comentou, sem drama nenhum, que aquilo era simplesmente o trabalho da família havia três gerações, não uma novidade criada para vender para turista.
O que essas três paisagens têm em comum não é geografia — é justamente o oposto. São José dos Ausentes, Urubici e Jalapão provam, cada um à sua maneira, que o Brasil tem espaço para paisagem de campo europeu, vilarejo alpino e deserto africano, tudo dentro das próprias fronteiras, sem precisar de visto, sem precisar de passagem internacional. Voltei dessa sequência de viagens pensando que a gente costuma associar “parecer outro país” a status, a algo mais chique ou mais distante. Mas o que vivi foi o oposto: paisagem que engana os olhos, mas que continua sendo profundamente brasileira em tudo o que não aparece na foto — no jeito de receber, no preço da diária, na simplicidade de quem mora ali e vê aquela paisagem todo santo dia sem achar nenhuma novidade nisso.
Se um dia alguém disser que para ver paisagem de outro mundo é preciso sair do Brasil, eu, com essas três viagens na memória, discordo com uma certa tranquilidade. Às vezes o outro país mais impressionante que existe é só uma estrada de terra e algumas horas de distância de casa.




