Toda vez que alguém me pergunta qual paisagem me deixou de boca aberta de verdade, a resposta vem rápido: as dunas do Nordeste. Não é só a cor da areia, quase branca, que parece nunca ficar quente demais pra andar descalça. É a sensação de estar num lugar que muda de forma o tempo todo, empurrado pelo vento, sem nenhuma trilha fixa pra seguir. Fui atrás de três lugares bem diferentes entre si — Jericoacoara, os Lençóis Maranhenses e Genipabu — e voltei com um caderno cheio de anotações práticas que eu queria ter tido antes de ir. Deixo tudo aqui, de um jeito que sirva pra qualquer pessoa que esteja planejando essa viagem, sozinha, em casal ou em grupo.
Jericoacoara: o clássico que ainda vale a pena
Jeri já é conhecida, e mesmo assim isso não tira o efeito de subir a Duna do Pôr do Sol pela primeira vez e ver a vila inteira parar pra assistir o mesmo espetáculo, todo santo dia. Cheguei no fim da tarde, com tempo só de deixar a mala na pousada e correr pra duna — decisão certa, porque perder esse horário ali é perder metade do motivo da viagem.
Como chegar: o caminho mais comum é voar até Fortaleza ou até Jijoca de Jericoacoara (esse último bem mais perto) e seguir de van ou 4×4 pelas últimas dunas até a vila — carro comum não entra. Saindo de Fortaleza, o trajeto de van costuma levar entre 4 e 5 horas, e a maioria das agências busca direto no aeroporto.
Onde ficar: prefira pousadas dentro da vila, a uma ou duas quadras da Rua Principal — dá pra fazer praticamente tudo a pé, inclusive chegar à Duna do Pôr do Sol andando. Evitei as opções mais afastadas, perto da orla mais vazia, depois de ouvir de outros viajantes que o trajeto à noite, sem carro próprio, complica bastante.
Passeios e dicas práticas: vale reservar um dia inteiro pro passeio de bugre pela Lagoa do Paraíso e pela Lagoa Azul, e outro dia, mais tranquilo, só pra caminhar pela vila e repetir a duna ao entardecer. Leve protetor solar, água e um chapéu — não tem nenhuma sombra lá em cima, e o vento engana a sensação de calor.
Lençóis Maranhenses: dunas que parecem outro planeta
Se Jeri me surpreendeu pelo pôr do sol, os Lençóis me surpreenderam pela escala. São dunas brancas até onde a vista alcança, com poças de água azul e verde encaixadas entre elas — uma paisagem que muda completamente dependendo da época do ano, porque essas lagoas só se formam depois da estação chuvosa.
Como chegar: a base mais usada é Barreirinhas, a cerca de 4 horas de carro de São Luís, ou Atins, uma vila bem menor e mais rústica, mais perto do coração do parque. Cheguei por Barreirinhas, mas se voltasse, tentaria entrar por Atins — é mais silencioso e mais perto das melhores lagoas.
Onde ficar: pousadas simples, com poucos quartos, são a regra por lá — nada de rede de hotel grande. Reservei com bastante antecedência porque a estrutura da região é pequena e lota rápido entre julho e setembro, quando as lagoas estão mais cheias de água.
Passeios e dicas práticas: o passeio clássico é de 4×4 até a Lagoa Azul ou a Lagoa Bonita, geralmente saindo bem cedo pra evitar o sol forte do meio-dia. Vale perguntar direto na pousada qual lagoa está mais cheia naquela semana — isso muda o tempo todo, e quem mora ali sabe na hora.
Genipabu: dunas perto da cidade grande, pra quem tem pouco tempo
Nem toda viagem permite um roteiro de uma semana inteira, e foi por isso que gostei tanto de Genipabu — dá pra sair de Natal de manhã e já estar em cima de uma duna de 30 metros de altura em menos de uma hora.
Como chegar: fica a uns 20 km do centro de Natal, com opção de táxi, aplicativo de transporte ou passeio organizado que já inclui ida e volta com motorista.
Onde ficar: quem quer economizar tempo de deslocamento pode ficar direto na Praia de Genipabu, mas também funciona bem ficar hospedada em Natal e fazer o passeio como bate-volta, sem trocar de pousada no meio da viagem.
Passeios e dicas práticas: o passeio de bugre com “esquibunda” — descer a duna sentado numa prancha de madeira — é o programa mais procurado, e o passeio de jangada pela Lagoa de Jacumã costuma ser vendido junto. Fui num dia de semana e não peguei fila nenhuma; final de semana costuma lotar bem mais.
Quando ir
Se o plano é ver os Lençóis Maranhenses com as lagoas cheias, o período entre junho e setembro é o mais garantido — fora dessa janela, boa parte das poças de água seca e a paisagem perde metade da graça. Jericoacoara e Genipabu não dependem tanto disso, já que o atrativo principal ali é a duna em si e o pôr do sol, então funcionam bem o ano inteiro. Vale só evitar julho e o fim de dezembro nos três lugares, se a ideia for fugir de multidão — são os meses de alta temporada mais concorrida no Nordeste inteiro.
O que aprendi depois das três
Voltei dessas viagens convencida de que dunas não são só cenário bonito pra foto — são paisagens vivas, que mudam de formato com o vento e de cor com a hora do dia. Se tivesse que escolher só uma pra recomendar a quem nunca foi, ficaria com Jericoacoara pela facilidade de chegar e se organizar sozinha; mas quem topa se planejar com um pouco mais de antecedência encontra nos Lençóis Maranhenses uma paisagem que realmente não existe em nenhum outro lugar do Brasil. Genipabu, no fim das contas, acabou sendo a prova de que nem sempre é preciso viajar longe pra encontrar uma duna que vale a pena.




