Viajar pela Patagônia de van foi uma decisão que tomei depois de ouvir, mais de uma vez, que era loucura. Sem roteiro fixo, sem reserva de hospedagem, dependendo só de posto de gasolina e do clima. Foi exatamente por isso que topei.
Passei quase três semanas atravessando estepe seca, vento constante e distâncias que fazem qualquer ideia brasileira de “longe” parecer curta. Voltei convencida de que a Patagônia argentina foi feita, quase por acidente, para esse jeito de viajar.
Neste artigo sobre vanlife na Patagônia, conto o trecho mais isolado da viagem: três paradas que só fizeram sentido porque eu estava de van, sem pressa e livre para dormir onde o dia terminasse.
Neste artigo
As 3 paradas deste roteiro pela Patagônia de van
Bajo Caracoles é um cruzamento minúsculo no meio da Ruta 40, na província de Santa Cruz. Tem cerca de cem moradores, um armazém, uma hospedagem simples e o único posto de combustível do trecho — que às vezes fica sem gasolina.
Cueva de las Manos é um cânion escavado pelo Río Pinturas, com mais de 2.000 pinturas de mãos nas paredes de pedra. As mais antigas têm mais de 9 mil anos. É Patrimônio Mundial da Unesco desde 1999 e hoje faz parte da área do Parque Patagonia.
Puerto San Julián é uma cidade pequena no litoral atlântico, onde o deserto termina num penhasco sobre o mar. Fernão de Magalhães passou o inverno de 1520 ali, e foi ali que se celebrou a primeira missa no que hoje é território argentino. Charles Darwin chegou com o Beagle em 1834 e encontrou fósseis nas falésias da baía.
Como alugar a van e chegar ao ponto de partida
Onde alugar
Bariloche é a principal base de aluguel de motorhomes e campervans da Patagônia argentina. Empresas como a Bariloche Motorhome, em Dina Huapi, alugam veículos para 2 a 6 pessoas e permitem, com custo extra, devolver em outra cidade.
Na alta temporada, de dezembro a fevereiro, as reservas esgotam cedo. Reserve com alguns meses de antecedência.
Até o trecho dos desertos
Peguei a van em Bariloche e desci pela Ruta 40 até Perito Moreno, a cidade com estrutura mais próxima de Bajo Caracoles. São alguns dias de estrada por estepe, com paradas em cidades pequenas para abastecer.
Quem tiver menos tempo pode voar para El Calafate e fazer o caminho ao contrário, subindo a Ruta 40 rumo ao norte. O asfalto cobre quase todo o trajeto entre Tres Lagos e Perito Moreno, com trechos de ripio em obras.
Distâncias principais
- Perito Moreno → Bajo Caracoles: cerca de 128 km de asfalto pela Ruta 40.
- Bajo Caracoles → Cueva de las Manos: 47 km de ripio pela Ruta Provincial 97, cerca de uma hora.
- Bajo Caracoles → Gobernador Gregores: cerca de 230 km pela Ruta 40.
- Gobernador Gregores → Puerto San Julián: pela Ruta Provincial 25, atravessando a estepe até a costa.
Onde dormir
- Perito Moreno: hotéis simples, supermercado, banco e posto. É o lugar ideal para abastecer tudo antes do deserto. Los Antiguos, a 56 km, à beira do Lago Buenos Aires, tem mais opções.
- Bajo Caracoles: o Hostel Ruta 40 recebe quem passa pela estrada. De van, dá para pernoitar nas redondezas, com vista para a estepe.
- Cueva de las Manos: o parque indica campings como Cañadón Caracoles, La Señalada e El Mollar, além da Hostería La Posta de los Toldos. Todos pedem reserva prévia.
- Puerto San Julián: há áreas de acampamento perto da baía e hospedagens na cidade, para quem quiser uma noite de banho quente e cama.
Para achar pontos de pernoite, água e postos, o aplicativo iOverlander é o mais usado por quem viaja de van na região. Os viajantes atualizam ali se o posto de Bajo Caracoles está com combustível.
Roteiro de 8 dias pela Patagônia de van
Dia 1 — Perito Moreno: abastecer para o vazio
Passei o dia em Perito Moreno resolvendo o que o deserto não perdoa. Tanque cheio, galões de água, comida para vários dias e dinheiro em espécie.
No fim da tarde, fui até Los Antiguos ver o Lago Buenos Aires, de um azul que não combina com a estepe ao redor. Foi a última paisagem “verde” antes do vazio.
Dia 2 — Ruta 40 até Bajo Caracoles
A Ruta 40 é a espinha dorsal da Patagônia argentina. Ela corre por milhares de quilômetros colada na cordilheira, e boa parte atravessa deserto puro: estepe baixa, arbustos espinhosos e terra ocre até onde a vista alcança.
Cheguei a Bajo Caracoles no fim da tarde e abasteci sem saber ao certo quando encontraria o próximo posto. Decidi dormir ali perto, na van, olhando o sol se pôr atrás de uma linha de montanhas longínquas.
O vento na Patagônia não é força de expressão. Ele empurra a van na estrada, dificulta abrir qualquer coisa do lado de fora e some quase por completo ao anoitecer, como se a paisagem inteira parasse para respirar.
Foi nesse silêncio repentino que vi meu primeiro grupo de guanacos cruzando a estrada, sem pressa nenhuma. Um condor sobrevoava bem alto, aproveitando as últimas correntes de ar quente do dia.
Ali entendi por que tanta gente chama a Patagônia de “fim do mundo”. Não é exagero poético, é descrição literal.
Dia 3 — Café no armazém e ripio até a Cueva de las Manos
Na manhã seguinte, o dono do único armazém do povoado me ofereceu café antes de eu seguir viagem. Comentou, sem drama, que em dias de vento mais forte a estrada simplesmente fecha, e todo mundo já sabe que é melhor esperar dentro de casa.
Peguei a Ruta Provincial 97, com 47 km de ripio, e cheguei à Cueva de las Manos no começo da tarde. Não há sinal de celular no caminho nem no parque.
Acampei na área permitida perto da entrada. À noite, um guarda-parque que trabalha ali há anos me explicou como interpretam as camadas de pintura. Há mãos em negativo, feitas soprando pigmento ao redor dos dedos, cenas de caça de guanacos e figuras que ainda intrigam os pesquisadores.
Dia 4 — A luz baixa sobre as mãos
Fiz a visita guiada logo no primeiro horário da manhã, num grupo pequeno. O percurso tem cerca de 1,5 km de trilha com degraus, ao longo do paredão.
Com a luz baixa entrando de lado nas pinturas, foi provavelmente o momento mais forte da viagem inteira. Sem fila, sem multidão tirando foto — só o silêncio do cânion e um registro humano de milhares de anos na parede.
À tarde, voltei pelo ripio até Bajo Caracoles e segui para o sul pela Ruta 40, rumo a Gobernador Gregores.
Dia 5 — Da Ruta 40 ao Atlântico
Saí da Ruta 40 e peguei a Ruta Provincial 25, que atravessa a estepe até a costa. Foi o dia mais longo de estrada, com quilômetros e quilômetros sem cruzar outro carro.
Cheguei a Puerto San Julián no fim da tarde e vi o deserto terminar de repente num penhasco sobre o oceano. Estacionei a van numa área de acampamento perto da baía, com vista direta para a água.
Dia 6 — Pinguins, golfinhos e a Ilha Justicia
Fiz o passeio de barco pela baía, de cerca de uma hora e quinze. Na Ilha Cormorán, mais de 120 mil pinguins-de-magalhães fazem ninho, e o barco chega bem perto da colônia.
No caminho, as toninhas-overas — golfinhos pequenos, pretos e brancos — saltavam ao lado do barco. A parada na Ilha Justicia traz a parte sombria da história: ali estão os túmulos de capitães executados por Magalhães em 1520 e por Francis Drake em 1578.
À noite, sem nenhuma luz de cidade grande por perto, o céu ficou tomado de estrelas de um jeito que só a combinação de deserto e litoral vazio consegue produzir.
Dia 7 — Nao Victoria e o Circuito Costero
Visitei a réplica em tamanho real da Nao Victoria, o navio de Magalhães, e o Monumento à Primeira Missa. Depois, percorri de van o Circuito Costero, com mirantes sobre as falésias onde Darwin encontrou seus fósseis.
Conversei com um pescador local que achava graça no contraste da região. Turista vem para ver pinguim, disse ele, mas ninguém espera encontrar tanto deserto colado direto na praia.
Dia 8 — Os lobos-marinhos sem placa
O pescador me indicou um trecho de costa mais afastado do centro, sem nenhuma placa. Fui de manhã cedo e encontrei lobos-marinhos descansando nas pedras, sem disputar espaço com nenhum outro visitante.
Foi a despedida perfeita do deserto antes de seguir viagem pela costa.
Leia também: Cantos da Amazônia: 3 lugares que poucos veem em 9 dias — outra viagem em que chegar já era metade da aventura.
Dicas para fazer a Patagônia de van com segurança
- Abasteça sempre que puder. Há trechos com mais de 200 km entre postos, e o de Bajo Caracoles nem sempre tem combustível. Abasteça em Perito Moreno e Gobernador Gregores, mesmo com meio tanque.
- Calcule água com folga. Nem toda cidade pequena tem ponto fácil para encher os galões.
- Respeite o ripio. A terra batida com cascalho solto pede velocidade baixa e pneus em bom estado. Leve estepe e confira o macaco antes de sair.
- Prenda tudo. O vento constante testa qualquer coisa solta na van. Abra as portas sempre com cuidado, de costas para o vento.
- Fogo só onde for permitido. A estepe seca pega fogo fácil, e muitas áreas proíbem fogueiras.
- Vá entre novembro e março. Os dias são longos, com temperaturas de 10 °C a 24 °C. No inverno, várias estradas ficam difíceis.
- Baixe mapas offline. Em boa parte do caminho não há sinal de celular.
- Confirme o passeio de barco. Em San Julián, ele é suspenso com mar ou vento forte, mesmo com reserva.
Quanto custa: tabela de valores
Os valores são referências recentes e mudam bastante, principalmente com a inflação argentina. Use como ponto de partida.
| Item | Valor aproximado |
|---|---|
| Aluguel de motorhome em Bariloche | US$ 2.000 a US$ 3.000 por semana |
| Entrada na Cueva de las Manos (estrangeiros) | cerca de AR$ 40.000, com visita guiada |
| Passeio de barco em San Julián | consulte a operadora (saídas diárias em janeiro e fevereiro) |
| Camping na região da Cueva de las Manos | com reserva prévia, valor direto com cada camping |
Os maiores gastos são o aluguel da van e o combustível. Dividir a viagem com mais uma ou duas pessoas reduz muito o custo por pessoa.
O que aprendi atravessando o deserto
Fazer a Patagônia de van exige um respeito que nenhuma viagem de carro no Brasil tinha me ensinado. A vanlife na Patagônia tem regras próprias, e quem dita todas elas é a estrada. Abastecer com o tanque pela metade deixou de ser exagero e virou hábito.
Em compensação, a recompensa é um isolamento impossível de encontrar voando entre cidades grandes.
Bajo Caracoles, Cueva de las Manos e Puerto San Julián não se parecem em nada. Um é cruzamento vazio no meio do deserto, o outro é sítio arqueológico monumental e o terceiro é onde o deserto cai no mar.
Mas os três só fizeram sentido do jeito que fizeram porque eu estava de van, livre para parar onde quisesse e ficar o tempo que quisesse. Se alguém me perguntar qual foi a viagem mais isolada que já fiz, a resposta continua sendo essa. Ela entrou direto para a minha lista de destinos remotos.
Informações práticas
- Melhor época: novembro a março.
- Aluguel da van: Bariloche, com reserva antecipada na alta temporada.
- Cueva de las Manos: 47 km de ripio a partir de Bajo Caracoles. Abre todos os dias, das 9h às 19h na alta temporada. Visita guiada de cerca de 1 hora.
- Puerto San Julián: pela Ruta Provincial 25, a partir de Gobernador Gregores. Passeio de barco de cerca de 1h15.
- Combustível: abasteça em Perito Moreno e Gobernador Gregores; o posto de Bajo Caracoles pode estar sem gasolina.
- Sinal de celular: inexistente em boa parte do trajeto.
Horários, preços e condições das estradas mudam com frequência — confirme sempre com o parque, as operadoras e os postos antes de viajar.




