A senhora nem perguntou se eu queria. Só estendeu a mão com um punhado de chapulines — gafanhotos temperados com limão e chile — e esperou. Todo mundo ao redor parecia achar normal, então levei um à boca tentando não pensar demais. Veio um crunch seco, depois limão, depois uma picância que demorou para chegar. Ela sorriu ao ver minha cara de surpresa e me ofereceu mais. Foi assim, no meu primeiro minuto dentro do Mercado Benito Juárez, que entendi que os três dias seguintes não iam ser sobre visitar Oaxaca, e sim sobre deixar a cidade me alimentar, literalmente, até eu entender o que ela tinha para ensinar.
Uma cidade que cozinha há séculos sem pressa nenhuma
Oaxaca é considerada por muita gente a capital gastronômica do México, e em três dias entendi por quê: a cidade tem mercados que funcionam como museus vivos, uma tradição de mole que varia de família para família e um mezcal que não tem nada a ver com a bebida genérica que conhecemos fora do México. Nada ali é feito rápido. Um mole pode levar um dia inteiro de preparo, e um bom mezcal começa anos antes, no momento em que o agave é plantado.
Como cheguei e onde escolhi ficar
Desembarquei no Aeroporto Internacional de Oaxaca, a cerca de 9 km do centro. Comprei a passagem do colectivo — van compartilhada — ainda dentro do terminal, no guichê oficial, por cerca de 135 pesos: a van sai quando enche e deixa cada passageiro na porta do endereço, o que fez meu trajeto demorar uns 45 minutos. Quem viaja acompanhado ou com mais bagagem sai ganhando com o taxi especial, mais caro por pessoa sozinha, mas competitivo dividido entre duas ou mais pessoas. Uber e DiDi não pegam passageiros ali, então nem tentei.
Escolhi ficar no Centro Histórico, perto do Zócalo, e foi a decisão certa para quem, como eu, queria sair andando para tudo: hotéis, restaurantes, mercados e os ônibus para passeios fora da cidade partem dali. Meu hotel já era um charme por conta própria, com pátio interno e paredes coloridas — e percebi rápido que isso não era exceção, e sim a regra: as ruas de Oaxaca transbordam cor, com praticamente todos os prédios pintados em tons vivos de azul, amarelo e vermelho. Quem busca mais sossego, com jardim e piscina, pode considerar San Felipe del Agua, bairro mais afastado que normalmente oferece transporte gratuito até o centro e o aeroporto — mas exige carro ou transporte combinado para o dia a dia.
As ruas coloridas, os bairros de Xochimilco e Jalatlaco, e a Praça de Santo Domingo
Reservei algumas horas sem roteiro fixo só para caminhar sem rumo pelos bairros de Xochimilco e Jalatlaco, dois dos mais fotogênicos da cidade, com ruas de pedra, fachadas coloridas e uma oferta de comida local que não encontrei em nenhuma outra parte do México — pequenos restaurantes de bairro, sem placa chamativa, servindo receitas de família. Foi também ali que entendi melhor a dimensão das comunidades indígenas de Oaxaca: o estado tem uma das maiores proporções de população indígena do país, bem acima da média nacional, e isso aparece em tudo — na língua que se ouve no mercado, nos tecidos vendidos nas lojas, na comida.
À tarde, passei um bom tempo na Plaza de Santo Domingo, ao lado do templo do mesmo nome, só sentada observando o movimento de moradores e turistas — um dos melhores lugares da cidade para não fazer nada. Foi ali, por acaso, que peguei o fim de uma Calenda, desfile de rua colorido e barulhento que celebra casamentos, aniversários e datas religiosas, com bonecos gigantes (os chamados “mojigangas”), banda tocando e todo mundo dançando atrás. Ninguém tinha me avisado que aquilo ia acontecer — e foi exatamente por isso que funcionou. À noite, Oaxaca também tem uma boa quantidade de bares e restaurantes com terraço, e jantar num rooftop, com vista para as cúpulas iluminadas da cidade e o clima ameno da noite, fechou o dia perfeitamente.
Dia 1: o dia dos mercados, e a aula de chapulines que eu não esperava
Depois do primeiro encontro com os chapulines, passei a manhã inteira entre o Mercado Benito Juárez e o Mercado 20 de Noviembre, que ficam lado a lado, um quarteirão ao sul do Zócalo. No Benito Juárez, andei entre bancas de chiles secos, pastas de mole prontas, queijo oaxaca sendo puxado à mão e tamales fumegantes. No 20 de Noviembre, ao lado, segui o cheiro de carnes grelhadas até o chamado “Pasillo de Humo” — corredor de banquinhas onde você escolhe a carne crua numa vitrine e observa ela ser grelhada ali mesmo, na hora, para comer em seguida com tortilla feita à mão. Almocei uma tlayuda, espécie de tostada gigante coberta de feijão, queijo, repolho e a carne que eu tinha escolhido minutos antes — fiquei surpresa com o tamanho, pensada claramente para compartilhar, mas comi a minha inteira sem nenhum arrependimento.
Dia 2: a aula de mole que durou a tarde inteira
Eu sabia que existia “o” mole, mas não sabia que existem sete tipos reconhecidos em Oaxaca, cada um com personalidade própria. Reservei uma tarde num comedor tradicional perto do centro para provar em sequência pequenas porções de mole negro — o mais famoso, escuro e profundo, com chocolate amargo e quatro tipos de chile — e mole verde, bem mais leve, feito com tomatillo, ervas frescas e sementes de abóbora. Também experimentei o mole amarillo, mais comum em tacos e empanadas de rua, numa barraca perto do mercado. O mole negro é geralmente servido com peru ou frango, então foi assim que pedi, e entendi por que cada família de Oaxaca guarda sua receita como segredo: nenhum dos moles que provei tinha o mesmo equilíbrio exato entre doce, picante e amargo.
Dia 3: o dia do mezcal, da planta ao copo
No último dia dediquei a tarde ao mezcal, decidida a entender a diferença entre essa bebida e a tequila que eu já conhecia. Visitei a La Mezcaloteca, no centro, onde uma degustação guiada explica os diferentes tipos de agave usados, as regiões de origem e como o processo de destilação muda o sabor final — sem rótulos nas garrafas, só números, para que a degustação seja sobre o líquido, não sobre a marca. No caminho até a região de Santiago Matatlán, conhecida como a “capital mundial do mezcal”, passei pelo vilarejo zapoteca de San Marcos Tlapazola, famoso pelas oleiras que fazem cerâmica artesanal com a argila vermelha típica da região — vi o barro sendo moldado à mão, sem torno, e polido com pedra antes de ir ao forno a céu aberto, uma tradição que passa de mãe para filha há gerações. Segui até um palenque, nome dado às pequenas destilarias artesanais de mezcal, e vi o agave sendo cozido em forno de terra, moído em roda de pedra puxada por um animal, e fermentado em tonéis de madeira. Terminei a viagem entendendo mezcal como eu nunca tinha entendido tequila: cada garrafa carrega o tipo de agave, a região e o mezcalero que a fez.
Se sobrar um dia: os sítios arqueológicos de Monte Albán e Mitla
Não consegui encaixar isso nos meus três dias, mas se eu voltasse, reservaria uma manhã para os dois sítios arqueológicos zapotecas mais importantes da região. Monte Albán fica a uns 30 minutos de carro do centro, numa colina com vista para o vale inteiro de Oaxaca, e pede de 3 a 4 horas de visita, incluindo o deslocamento. Mitla, mais longe, a pouco mais de uma hora de carro, é um antigo cemitério pré-hispânico conhecido pelos painéis de pedra com padrões geométricos entalhados à mão — vale de 4 a 5 horas, contando ida e volta. Fazer os dois no mesmo dia é um programa puxado, mas possível para quem sair bem cedo.
O que eu não perderia de novo
Não perderia aquele primeiro punhado de chapulines por nada — foi o que abriu meu apetite, literal e figurado, para o resto da viagem. Reservaria com mais antecedência o tour até Santiago Matatlán, porque descobri de última hora que as vagas enchem rápido na alta temporada. E provaria os sete moles em vez de só três, porque, no fim, foi a comparação entre eles que me ensinou mais sobre Oaxaca do que qualquer prato isolado.
Informações práticas
- Como chegar do aeroporto: colectivo (van compartilhada), cerca de 135 pesos por pessoa para o Centro, 30-45 min; taxi especial privado, cerca de 490 pesos, 20-30 min, mais vantajoso para duas pessoas ou mais. Compre a passagem no guichê oficial dentro do terminal, nunca direto com o motorista. Uber e DiDi não operam no desembarque.
- Onde ficar: Centro Histórico, perto do Zócalo, para andar a pé até tudo; San Felipe del Agua para mais sossego, com transfer próprio, mas exige deslocamento diário.
- Mercados: Mercado Benito Juárez e Mercado 20 de Noviembre, lado a lado, a uma quadra do Zócalo; vá com fome e prove sem medo.
- Mezcal: degustações guiadas na La Mezcaloteca, no centro; tours de meio período até Santiago Matatlán para visitar um palenque tradicional — reserve com antecedência.
- Moles: os sete tipos (negro, colorado, poblano, verde, amarillo, manchamantel e chichilo) variam de comedor para comedor; vale perguntar qual é a especialidade da casa antes de pedir.
- Bairros para caminhar sem rumo: Xochimilco e Jalatlaco, com ruas coloridas e comida de bairro; a Plaza de Santo Domingo é boa para sentar e observar o movimento, e de vez em quando passa uma Calenda, desfile tradicional de rua.
- San Marcos Tlapazola: vilarejo zapoteca conhecido pela cerâmica de argila vermelha, no caminho para Santiago Matatlán; dá para combinar com o passeio de mezcal no mesmo dia.
- Sítios arqueológicos: Monte Albán (cerca de 30 min de carro, 3-4h de visita) e Mitla (pouco mais de 1h de carro, 4-5h de visita) — bons programas para quem tiver um quarto dia disponível.
Preços e horários sujeitos a mudança — confirme sempre no guichê ou com operadores locais antes de viajar.




