Bolonha, Itália: o que comer em 3 dias na cidade mais gulosa da Itália

Ainda nem tinha pedido nada quando o rapaz atrás do balcão da Tamburini estendeu um palito com uma fatia de mortadela e disse, em italiano misturado com gestos: “primeiro prova, depois decide”. Levei à boca sem saber bem o que esperar — e descobri, ali mesmo, que a mortadela que eu conhecia no Brasil não tinha quase nada a ver com aquilo: textura macia, gordura que derretia na língua, um tempero que eu não sabia nomear. Decidi comprar um quarto de quilo sem pensar duas vezes, e foi assim, literalmente com a boca cheia, que comecei meus três dias em Bolonha.

A cidade que a Itália chama de “a gulosa”

Bolonha carrega o apelido de “la grassa” — a gorda, ou a gulosa — e depois de três dias ali entendi por que ninguém discute o título. É a cidade que deu origem ao ragù que o mundo conhece mal traduzido como “molho bolonhesa”, ao tortellini recheado à mão e à mortadela de verdade, nada parecida com a versão industrializada. Diferente de Roma ou Florença, Bolonha não compete só por monumento: compete por prato, e cada trattoria tem uma opinião forte sobre qual é a receita autêntica. Mas também percebi rápido que reduzir a cidade só à comida seria injusto — tem um ar jovem e meio moderno circulando por ali, puxado pela vida universitária, que mantém bar, música, cinema e arte de rua fazendo parte do dia a dia tanto quanto qualquer trattoria.

Como cheguei e onde escolhi ficar

Desembarquei no Aeroporto Guglielmo Marconi, a cerca de 9 km da Estação Central. Peguei o Aerobus, o ônibus expresso que liga o aeroporto ao centro, por 6 euros, com saídas a cada 11 minutos até as 21h30 — depois disso, só de táxi, por cerca de 18 euros. Existe também um trem que faz o trajeto em uns 5 minutos por cerca de 3 euros, mas com bagagem grande não é tão prático, principalmente em horário de pico.

Escolhi ficar no centro histórico, ao redor da Piazza Maggiore, e foi a decisão certa para quem, como eu, queria sair andando para tudo — da Fontana di Neptuno às Due Torri, com o Quadrilatero a poucos passos. Quem não se incomoda com barulho e quer vida noturna mais barata pode considerar a região da universidade, perto da Via Zamboni, cheia de bares de aperitivo e estudantes — só vale pedir um quarto de frente para os fundos do prédio, porque a região não dorme fácil. Já quem busca praticidade para pegar trem na saída da viagem pode ficar perto da Estação Central, mais simples e menos charmosa, a uns 20 minutos a pé da praça principal.

Dia 1: mortadela, o Quadrilatero e a praça que resume a cidade

Depois do episódio da mortadela, segui para a Piazza Maggiore, o verdadeiro coração de Bolonha e resultado de séculos de transformações urbanas que foram, aos poucos, somando prédios importantes ao redor dela: a Basílica de San Petronio, enorme e nunca totalmente terminada por fora, o Palazzo dei Notai, o Palazzo d’Accursio (hoje sede da prefeitura), o Palazzo del Podestà e o Palazzo dei Banchi. Caminhei por baixo dos pórticos que emolduram a praça e fiquei um tempo só olhando as pessoas passarem — tem algo de teatro ali, com gente sentada nas escadarias das igrejas, estudante com livro debaixo do braço, turista perdido no mapa.

A um quarteirão dali, na Via dell’Indipendenza, entrei na Catedral de Bolonha, de estilo barroco, para ver de perto algumas das obras de arte religiosa mais bonitas que vi na viagem inteira — um contraste e tanto com o resto da tarde, que passei no Quadrilatero, o bairro medieval de ruas estreitas e pórticos entre as vias Rizzoli, Castiglione, Farini e Archiginnasio. No coração dele fica o Mercato di Mezzo, mercado de três andares reformado há pouco mais de uma década: no térreo, produtores fazendo tortellini à mão na frente dos clientes, bancas de Parmigiano-Reggiano e salumi; no primeiro andar, uma pizzaria artesanal e balcões de degustação de vinhos da Emília-Romanha; no subsolo, uma cervejaria local. Circulei pelas três lojas de embutidos mais tradicionais da região — a própria Tamburini, fundada em 1932, a Salumeria Simoni, que vende desde 1960, e a Mò Mortadella Lab, especializada em sanduíches simples de mortadela por poucos euros — comparando fatias como se estivesse numa prova de vinho.

Dia 2: tagliatelle al ragù, as Due Torri e os pórticos que são Patrimônio Mundial

Reservei a manhã do segundo dia para resolver uma dúvida que parecia impossível: qual trattoria faz o melhor tagliatelle al ragù da cidade. Fui atrás de três endereços clássicos, todos sem reserva e com fama de fila — Osteria dell’Orsa, Sfoglia Rina e Trattoria Anna Maria —, e aprendi rápido que o segredo é chegar bem antes do horário de pico do almoço. Escolhi a Sfoglia Rina, pelo preço mais simples e pela massa feita na hora, visível do balcão, e entendi por que ninguém em Bolonha chama esse prato de “molho bolonhesa”: o ragù ali é mais carne do que tomate, encorpado, quase seco, bem diferente de qualquer versão que eu já tinha comido fora da Itália.

À tarde, caminhei até as Due Torri e subi a Torre degli Asinelli, a mais alta das duas, só para ver a cidade inteira do alto antes do jantar — e foi lá de cima que entendi de verdade a importância dos pórticos que cobrem praticamente toda rua do centro. São a imagem mais marcante de Bolonha, reconhecidos pela UNESCO como Patrimônio Mundial em 2021, e surgiram ainda no século 12, quando moradores começaram a estender suas casas sobre as ruas públicas, criando essas galerias cobertas. Tem pórtico de todo estilo — renascentista, gótico, românico, moderno — e, juntos, somam 62 km de extensão pela cidade. Vi o mais antigo, de madeira, na Via Marsala, e passei pelo mais largo, ao lado da Basílica de Santa Maria dei Servi, cada um contando um pedaço da história da família ou do bairro a que pertence.

Dia 3: tortellini, o pórtico mais longo do mundo e a despedida mais gulosa possível

No último dia, antes de ir atrás do tortellini, caminhei por um trecho do pórtico mais longo do mundo — 3,7 km que sobem até o Santuário de San Luca, no alto de uma colina, com vista aberta para a cidade inteira. Voltei com fome de verdade pelo outro prato que carrega o nome de Bolonha: o tortellini, pequeno, recheado à mão, tradicionalmente servido “in brodo”, dentro de um caldo simples, em vez de um molho pesado. Provei numa trattoria de bairro indicada por um morador, bem diferente da versão que já tinha visto fora da Itália, maior e menos cuidada.

No caminho de volta ao centro, ainda passei pelo MAMbo, o Museu de Arte Moderna de Bolonha, que mostra bem como a cidade trata sua própria história: o prédio e o pórtico ao redor dele são antigos, mas foram repaginados para abrigar arte contemporânea, sem apagar o que já existia ali antes. Fechei a viagem voltando ao Quadrilatero para comprar queijo, vinagre balsâmico envelhecido e mais um pouco de mortadela para levar — dessa vez, com pistache, uma variação que só descobri ali.

O que eu não perderia de novo

Não perderia aquela primeira fatia de mortadela oferecida de graça — foi o que me ensinou, em segundos, a diferença entre o que eu conhecia e o que realmente existia ali. Chegaria ainda mais cedo às trattorias sem reserva, porque percebi que quinze minutos de atraso já significavam fila na porta. E teria reservado uma manhã inteira, e não só uma tarde, para caminhar com calma pelos pórticos até o Santuário de San Luca — o caminho pede tempo, não pressa.

Informações práticas

  • Como chegar do aeroporto: Aerobus até o centro (€6, a cada 11 min até 21h30) ou trem até a Estação Central (~€3, 5 min, menos prático com bagagem); táxi fora desses horários (~€18).
  • Onde ficar: centro histórico, ao redor da Piazza Maggiore, para andar a pé até tudo; região da universidade para vida noturna mais barata (mais barulhenta); perto da Estação Central para praticidade na saída.
  • Piazza Maggiore: coração da cidade, rodeada pela Basílica de San Petronio, o Palazzo dei Notai, o Palazzo d’Accursio, o Palazzo del Podestà e o Palazzo dei Banchi. A Catedral de Bolonha fica a um quarteirão, na Via dell’Indipendenza.
  • Pórticos: Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2021, com 62 km de extensão. O mais antigo (de madeira) fica na Via Marsala, o mais largo ao lado da Basílica de Santa Maria dei Servi, e o mais longo do mundo (3,7 km) sobe até o Santuário de San Luca.
  • Quadrilatero e Mercato di Mezzo: bairro medieval com o principal mercado gastronômico da cidade, entre as vias Rizzoli, Castiglione, Farini e Archiginnasio.
  • Tagliatelle al ragù: Sfoglia Rina, Osteria dell’Orsa e Trattoria Anna Maria são os endereços mais citados — nenhum aceita reserva, então vale chegar antes do horário de pico.
  • Mortadela: Antica Salsamenteria Tamburini (desde 1932), Salumeria Simoni (desde 1960) e Mò Mortadella Lab (sanduíches simples e baratos).
  • Tortellini: tradicionalmente servido “in brodo”; melhor buscar trattorias de bairro, fora do circuito mais turístico.
  • MAMbo (Museu de Arte Moderna de Bolonha): bom complemento cultural fora do eixo só gastronômico, com acervo de arte contemporânea num prédio histórico reaproveitado.

Preços sujeitos a mudança — confirme sempre nos sites oficiais antes de viajar.

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