Antes de embarcar para Arequipa eu já sabia, pelas fotos, que a cidade era bonita. O que eu não esperava era ficar confusa sobre em que parte do mundo estava. Andando pelo centro histórico, tive a estranha sensação de estar ao mesmo tempo em alguma cidade do Oriente Médio — pelo tom claro e a arquitetura maciça das construções — e num centro colonial mexicano, pelas ruas em xadrez e as igrejas cheias de detalhe. Só entendi essa mistura de referências depois de descobrir o motivo por trás dela: em Arequipa, praticamente tudo foi construído com a mesma matéria-prima.
A Ciudad Blanca, feita de pedra vulcânica
O centro histórico é conhecido como Ciudad Blanca, a Cidade Branca, e o apelido não é exagero nem marketing turístico. As construções mais antigas — a catedral na Plaza de Armas, o Monasterio de Santa Catalina, boa parte dos casarões coloniais — foram erguidas com sillar, uma pedra vulcânica branca, porosa e leve, formada pelo material expelido pelos vulcões da região há milhares de anos. É essa pedra uniforme que dá à cidade seu tom claro característico e, à tarde, quando a luz bate de lado nas fachadas, cria um efeito quase dourado que sozinho já justificaria a viagem.
E os vulcões não ficaram só na origem da pedra: eles seguem ali, visíveis o tempo todo. Da Plaza de Armas já dá para avistar o Misti, com mais de 5.800 metros, junto com o Chachani e o Pichu Pichu emoldurando o horizonte da cidade em praticamente qualquer direção que se olhe. Não é uma vista pontual de mirante — é presença constante, o tipo de paisagem que a gente para de notar conscientemente depois do segundo dia, mas que continua ali, moldando o clima e a luz da cidade inteira.
Para quem quiser entender esse processo de perto, existe um passeio de meio dia que segue a chamada Rota do Sillar, até as pedreiras de onde essa rocha porosa foi retirada havia séculos para erguer boa parte da cidade. Fui num desses passeios e vi de perto como os blocos eram extraídos e talhados à mão, além de petróglifos e estátuas esculpidas na própria pedra ao longo do caminho — um complemento perfeito para quem já andou pelo centro e quer saber de onde, literalmente, a Cidade Branca veio.
O Monasterio de Santa Catalina e o mirador de Yanahuara
Passei uma manhã inteira dentro do Monasterio de Santa Catalina, que funciona quase como uma cidade dentro da cidade: ruas internas estreitas, pátios silenciosos e uma paleta de cores que não combina em nada com a imagem que eu tinha do Peru — paredes em tons de vermelho-ferrugem, azul-marinho e creme, intercaladas por fontes, lanternas, flores e móveis coloniais que parecem ter ficado ali intactos desde a fundação do convento. É melhor visitar cedo, quando a luz ainda entra baixa pelas ruelas e o lugar ainda não está cheio. Cheguei a me perder de propósito em alguns corredores só para ver aonde iam dar, e em mais de uma esquina fiquei sozinha por minutos inteiros, sem nenhum outro visitante à vista, algo raro para um lugar tão conhecido.
À tarde, subi até o mirador de Yanahuara, de onde se vê a cidade inteira emoldurada pelos vulcões — um dos pontos onde entendi de vez por que tanta gente compara Arequipa a paisagens do Oriente Médio. Ao lado do mirador fica um pequeno mercado de artesanato local, e aproveitei para conversar com uma vendedora que morava no bairro havia mais de trinta anos; ela contou que cresceu vendo o Misti todos os dias pela janela e só percebeu como aquilo era especial quando viajou, pela primeira vez na vida, para uma cidade sem vulcão nenhum no horizonte.
Reservei um dia inteiro só para as fontes termais nos arredores da cidade, porque o deslocamento até lá consome tempo e não vale a pena apressar. Valeu cada hora: piscinas naturais de água quente, em temperaturas diferentes, cercadas por paisagem árida e vulcânica, num contraste que por si só já parece de outro planeta.
Picanterías, rocoto relleno e o Mercado San Camilo
Sobre comida, Arequipa surpreende até quem já viajou bastante pelo Peru. As picanterías — restaurantes tradicionais, muitos ainda com fogão a lenha, receitas passadas entre gerações — servem pratos como o rocoto relleno (pimenta recheada com carne e queijo) e o adobo arequipeño, um porco cozido lentamente até ganhar um sabor defumado profundo. De sobremesa, experimentei o queso helado, que apesar do nome não tem absolutamente nada de queijo — é um doce gelado de leite, canela e coco. Os preços, comparados ao Brasil, são surpreendentemente baixos para a qualidade servida. Também passei uma manhã no Mercado San Camilo, onde barracas centenárias vendem desde fruta local até queijo fresco e doces regionais lado a lado — o tipo de lugar em que dá para montar um piquenique inteiro sem gastar quase nada, só andando de banca em banca e experimentando o que cada vendedora oferece.
Os cânions de Colca e Cotahuasi, e a trilha até o topo do Misti
Quem tiver mais tempo de viagem encontra em Arequipa a porta de entrada para dois dos cânions mais profundos do mundo. O Cañón del Colca fica a cerca de 4 horas da cidade e é famoso pela observação de condores — ver essas aves enormes planando sobre o abismo é um espetáculo à parte, e dá para encaixar trilhas de vários dias por ali. O Cañón del Cotahuasi, mais profundo ainda e bem menos movimentado, fica mais distante, a quase 10 horas de estrada, e recompensa quem topar a viagem mais longa com uma sensação de isolamento que o Colca, hoje mais procurado, já não oferece do mesmo jeito.
Para quem gosta de desafio físico, existe ainda a subida ao próprio vulcão Misti, o símbolo mais visível da cidade. É uma expedição de 2 a 3 dias que leva ao cume, a 5.825 metros de altitude — provavelmente a maior altitude que a maioria das pessoas vai alcançar na vida. Não fiz a subida completa, mas conversei com viajantes que tinham acabado de descer, e todos descreveram a mesma mistura de cansaço extremo e vista inesquecível no topo. É considerada uma das ascensões mais acessíveis do mundo para uma montanha dessa altura, mas ainda assim exige preparo físico e um bom guia — não é passeio para quem está só de passagem.
Juanita, a jovem inca preservada pelo gelo
Uma das visitas que mais me marcou em Arequipa não teve nada de arquitetura colonial: foi o Museo Santuarios Andinos, no centro da cidade, onde está Juanita, considerada a múmia inca mais bem preservada já encontrada. Ela foi uma jovem sacrificada à Pachamama, a Mãe Terra, pelos incas no século XV, no alto do monte Ampato — e, por ter ficado preservada pelo gelo, e não por um processo de mumificação proposital, seu corpo e os objetos enterrados com ela chegaram em um estado de conservação impressionante. Juanita só foi descoberta séculos depois, quando a erupção de um vulcão vizinho derreteu parte do gelo que a mantinha escondida. É uma visita rápida, de menos de uma hora, mas que fica na memória tanto quanto qualquer vulcão ou cânion da região.
O roteiro ideal, e o que ficou faltando
Se eu tivesse que resumir um roteiro ideal, seria assim: começar pela Plaza de Armas, reservar a manhã seguinte para o Monasterio de Santa Catalina — sempre cedo, pela luz —, seguir à tarde para o mirador de Yanahuara, dedicar um dia inteiro às fontes termais e guardar as noites para as picanterías. Ficou faltando o Cañón del Colca, um dos cânions mais profundos do mundo, a algumas horas dali — motivo mais do que suficiente para eu voltar.
Saí de Arequipa com a sensação de ter visitado um lugar que resiste a comparação fácil. Não é bem Oriente Médio, não é bem México, e definitivamente não é o Peru que a maioria imagina quando pensa em Cusco ou Machu Picchu. É uma cidade construída, literalmente, sobre a própria origem vulcânica — branca, alta, cercada de montanhas que fumegam de vez em quando só para lembrar quem manda naquela paisagem. Uma segunda cidade do Peru que muita gente pula no caminho para os pontos mais famosos, e que, na minha opinião, não deveria ficar de fora do roteiro de ninguém que for até lá.
Informações práticas
- Documentação para brasileiro: pelo acordo do Mercosul, entra-se no Peru apenas com RG dentro da validade de dez anos, sem necessidade de passaporte — vale checar a validade do documento antes de sair de casa.
- Como chegar: o Aeroporto Rodríguez Ballón (AQP) recebe cerca de 20 voos diretos por dia de Lima (2h05 de voo) e 3 voos diretos por dia de Cusco (1h35), operados por LATAM, JetSMART e Sky Airline. O trajeto do aeroporto até o centro leva cerca de 30 minutos, de táxi, Uber ou transfer privado.
- Onde ficar: a região da Plaza de Armas é a mais prática, com acesso a pé à Catedral, ao Monasterio de Santa Catalina e à maior parte dos restaurantes. Há opções para todos os orçamentos, de hotéis boutique na própria praça a hostels a poucos quarteirões dali.
- Altitude: Arequipa fica a pouco mais de 2.300 metros, bem menos que Cusco ou Puno, mas ainda assim vale ir com calma no primeiro dia, beber bastante água e evitar esforço físico grande logo na chegada.
- Moeda: leve sol peruano em espécie — boa parte das picanterías e das bancas do Mercado San Camilo ainda não aceita cartão.
- Rota do Sillar: passeio de meio dia até as pedreiras de onde saiu a pedra vulcânica que construiu o centro histórico; inclui petróglifos e estátuas talhadas na própria rocha ao longo do caminho.
- Cânion del Colca e Cañón del Cotahuasi: Colca fica a cerca de 4h de Arequipa e é famoso pela observação de condores; Cotahuasi, mais profundo e menos movimentado, fica a quase 10h — os dois oferecem trilhas de vários dias para quem tiver tempo.
- Trilha do vulcão Misti: expedição de 2 a 3 dias até o cume, a 5.825 m de altitude; exige preparo físico e guia experiente, mas é considerada uma das ascensões mais acessíveis do mundo para uma montanha dessa altura.
- Museo Santuarios Andinos: no centro da cidade, abriga a múmia inca Juanita, preservada pelo gelo no monte Ampato; visita rápida, de menos de uma hora.
- Vale completar a viagem com: o Cañón del Colca ou o Cotahuasi, caso o tempo permita esticar o roteiro.
Preços, horários e regras de documentação sujeitos a mudança — confirme sempre com fontes oficiais antes de viajar.




