Alguns lugares escondidos no Brasil parecem ter feito de tudo para não ser descobertos. Não é acaso, nem falta de beleza — muitas vezes é o contrário. Ninguém ali correu atrás de placa de turismo, selo de “point instagramável” ou parceria com agência.
Com o tempo, aprendi que esse desinteresse é exatamente o que salva certos lugares de virarem cópia de si mesmos.
Visitei três deles nos últimos meses: uma vila de pedra no sertão da Bahia, um pedaço do Tirol no oeste de Santa Catarina e uma vila de pescadores no litoral do Rio Grande do Norte. Nenhum pediu para ser notícia — e talvez seja por isso que valha tanto a pena contar.
Neste artigo
3 lugares escondidos no Brasil deste roteiro
Igatu (BA) é um vilarejo de pedra no município de Andaraí, na Chapada Diamantina. Nasceu no século 19, quando garimpeiros ergueram um povoado inteiro de pedra para explorar diamantes. Hoje restam ruas estreitas, casas em ruínas tomadas pelo mato e outras reformadas, ainda habitadas.
Treze Tílias (SC) foi fundada em 13 de outubro de 1933 por Andreas Thaler, ex-ministro da Agricultura da Áustria, com 85 imigrantes tiroleses. Tem pouco mais de 9 mil habitantes, casas em estilo tirolês, moradores mais velhos que ainda falam o dialeto e o título de Capital Catarinense dos Escultores, pelos ateliês de escultura em madeira.
Barra do Cunhaú (RN) fica em Canguaretama, onde o rio Curimataú encontra o mar. De um lado, manguezal; do outro, dunas e vegetação nativa. No meio, uma vila de pescadores que ainda vive, em boa parte, da pesca artesanal — enquanto o litoral vizinho já vive de resort.
Como chegar
Igatu
Os aeroportos mais próximos são os de Salvador e Vitória da Conquista. O pequeno aeroporto de Lençóis tem voos limitados, em poucos dias da semana. De carro, chega-se a Andaraí e depois sobe-se a estrada até Igatu. Carro é a forma mais prática de circular pela Chapada.
Treze Tílias
O aeroporto de Chapecó fica a cerca de 200 km. Florianópolis está a cerca de 430 km, umas cinco horas de carro. Também há ônibus intermunicipais saindo de Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre. Na cidade, tudo se faz a pé a partir do centro.
Barra do Cunhaú
Fica a cerca de 90 km de Natal: pela BR-101 até Canguaretama e depois 13 km pela RN-269 até o litoral. Quem vem de Pipa leva menos de 30 minutos, com uma travessia de balsa em Sibaúma.
Onde se hospedar
- Igatu: a Pousada Pedras de Igatu fica a 500 m das ruínas, com piscina e café da manhã incluso. O Art Hotel Cristal de Igatu fica no centro do vilarejo. Também há pousadas de família com poucos quartos, em que o dono costuma ser guia, cozinheiro e contador de histórias.
- Treze Tílias: fique no centro, perto da Praça Andreas Thaler, para fazer tudo a pé. Muitas hospedagens seguem o estilo tirolês, com madeira e flores nas janelas. Em outubro, na Tirolerfest, reserve com bastante antecedência.
- Barra do Cunhaú: hospedagem simples e familiar é a regra. A Pousada do Forte, a Pousada Áurea e o Recanto dos Coqueiros ficam a poucos metros da praia.
Nos três lugares, a oferta de quartos é pequena e nem sempre está nos sites de reserva. Ligue ou mande mensagem direto para a pousada.
Roteiro de 9 dias pelos lugares escondidos no Brasil
Dia 1 — Chegada a Igatu e pôr do sol nas ruínas
Cheguei a Igatu numa tarde de sol forte, depois de uma estrada de terra que corta parte da Chapada Diamantina. Fiquei numa pousada de família, dessas em que o dono conta a história do lugar durante o café da manhã.
No fim da tarde, caminhei entre as ruínas de pedra, quando a luz baixa deixa tudo dourado. À noite, quase sem luz de poste, o céu ficou tomado de estrelas. Sentei numa pedra na frente da pousada e fiquei ali parada bem mais tempo do que pretendia.
Dia 2 — Mirante do Capa Bode, Gruta do Badejo e cachoeiras sem nome
O dono da pousada me acompanhou parte da trilha. Foi apontando ruínas de antigas casas que hoje só abrigam lagartixa e mato alto, contando de cabeça quem morou em cada uma, como se falasse de vizinhos recentes.
Subimos ao Mirante do Capa Bode, de onde se vê boa parte do vale e as ruínas do vilarejo lá embaixo, com a Chapada se abrindo em tons de laranja e cinza. Na mesma caminhada, entramos na Gruta do Badejo, de acesso simples.
À tarde, segui por caminhos pouco usados até cachoeiras sem placa nem nome oficial. Não cruzei com nenhum outro grupo de turistas o dia inteiro.
Dia 3 — O azul do Poço Encantado
Peguei o carro e dirigi cerca de 40 km até o Poço Encantado, uma das cavernas mais famosas da Chapada. Entre abril e o começo de setembro, um raio de sol entra pela fenda da gruta, mais ou menos entre 10h e 14h, e deixa a água num azul que parece impossível.
A visita dura uns 20 minutos, com guia, capacete e lanterna. Não é permitido entrar na água, e é melhor assim.
Dia 4 — Do sertão baiano ao Tirol catarinense
Foi um dia de deslocamento: voo até Chapecó e estrada até Treze Tílias. Outro Brasil, literalmente — outro clima, outra arquitetura, outra história de imigração.
Dia 5 — Confeitarias, escultores e o doce de maçã da bisavó
O que mais me marcou em Treze Tílias não foi a arquitetura, mas o ritmo. É uma cidade pequena o bastante para que padeiro, dono de mercearia e motorista de van escolar se conheçam pelo nome.
Passei a manhã andando sem pressa pelo centro, entrando em confeitarias de família que ainda seguem receitas trazidas pelos bisavós. Um morador me explicou por que a cidade nunca investiu pesado em turismo de massa: “aqui todo mundo prefere que as coisas continuem do jeitinho que são”.
Visitei um ateliê de escultura em madeira, a tradição que deu à cidade o título de capital dos escultores. Almocei numa cozinha de casa transformada em pequeno restaurante, com cardápio que muda conforme o que colheram no quintal.
A dona me mostrou as fotos dos avós que chegaram da Áustria carregando pouco além da receita de um doce de maçã — que ela ainda serve hoje. Não tinha fila nem ninguém filmando o prato. Só gente comendo devagar.
À tarde, visitei o Museu Municipal Andreas Thaler, na antiga casa do fundador, com objetos da imigração e equipamentos agrícolas guardados no porão.
Dia 6 — O lago com o mapa da Áustria e a cervejaria da casa
Fui ao Parque do Imigrante, que tem um lago com uma pequena ilha recortada no formato do mapa da Áustria. Um detalhe tão específico que só faz sentido numa cidade fundada por quem nunca quis esquecer de onde veio.
Para quem viaja com crianças, o Parque Linderdorf reproduz a cidade em miniatura, com capivaras e ovelhas soltas pelo terreno. Terminei o dia na Cervejaria Bierbaum, provando as cervejas da casa.
Dia 7 — Barra do Cunhaú e jantar na mesa da cozinha
Voei até Natal e desci pela BR-101 até Barra do Cunhaú. No fim da tarde, caminhei pela praia comprida e praticamente vazia — sem barraca, sem música alta, só o som da água.
À noite, jantei numa casa de família que serve peixe fresco puxado da rede naquele dia. Sem cardápio impresso, sem nome de restaurante, só a mesa da cozinha aberta para quem chega.
Dia 8 — Saída dos barcos no escuro e caiaque no mangue
Um dos pescadores mais velhos da vila me convidou para acompanhar a saída dos barcos, ainda no escuro. Queria que eu entendesse como se lê a maré e o vento antes de decidir para que lado remar.
Não peguei peixe nenhum, mas voltei com a sensação de ter visto um ofício inteiro se repetir, quase sem mudança, há gerações.
Depois do café, fiz um passeio de caiaque pelos braços do mangue, com a maré baixa, observando caranguejos e aves. Quem quiser ir além pode caminhar descalço pela trilha de barro do mangue para pescar caranguejo com um guia local.
Dia 9 — Piscinas da Barrinha, Ilha da Restinga e os mártires de Cunhaú
Fui cedo à Praia da Barrinha, na maré baixa, quando as rochas formam piscinas naturais que parecem banheira de hidromassagem — às vezes com visita de tartaruga-marinha. Da Boca da Barra, atravessei de barco até a Ilha da Restinga, com praias ainda mais vazias.
À tarde, fiz um desvio até o Engenho Cunhaú, a cerca de meia hora de carro. Ali, na capela de Nossa Senhora das Candeias, aconteceu em 16 de julho de 1645 um massacre durante a missa, no período da ocupação holandesa. As vítimas estão entre os mártires de Cunhaú e Uruaçu, canonizados em 2017. Foi um contraponto forte para quem só esperava sol e mar.
Leia também: Heranças culturais no Brasil: Mazagão Velho, Prudentópolis e Oriximiná — outra viagem por cidades que guardam a herança de quem veio de longe.
Dicas que fazem diferença em cada lugar
Igatu
- Veja as ruínas no fim da tarde: a luz baixa é a mais bonita para fotografar.
- Contrate um guia local para as trilhas sem sinalização. Muitas vezes, o próprio dono da pousada faz isso.
- Para ver o raio de sol no Poço Encantado, vá entre abril e o começo de setembro, num dia de céu aberto.
Treze Tílias
- Em outubro acontece a Tirolerfest, com desfiles, trajes típicos e bandas de sopro. Reserve hospedagem com antecedência.
- Visite um ateliê de escultura em madeira e pergunte sobre as peças: muitos artesãos adoram contar o processo.
- Leve casaco mesmo no verão: a cidade fica a quase 800 metros de altitude.
Barra do Cunhaú
- Consulte a tábua de marés: as piscinas da Barrinha e o caiaque no mangue dependem da maré baixa.
- Combine o barco para a Ilha da Restinga direto com os barqueiros na Boca da Barra.
- Confirme o horário de visita do Engenho Cunhaú com a paróquia de Canguaretama antes de ir.
Quanto custa: tabela de valores
Os valores são referências recentes e mudam conforme a época. Confirme antes de viajar.
| Item | Valor aproximado |
|---|---|
| Entrada no Poço Encantado | cerca de R$ 20 a R$ 30, com guia local |
| Guia para trilhas em Igatu | combinado com a pousada ou o guia |
| Museu e parques de Treze Tílias | valores baixos; confira na chegada |
| Barco para a Ilha da Restinga | combinado com os barqueiros na Boca da Barra |
| Caiaque no mangue de Barra do Cunhaú | combinado com a pousada ou guias locais |
O maior gasto é o transporte aéreo entre Bahia, Santa Catarina e Rio Grande do Norte. Compre as passagens com antecedência.
O que esses três lugares têm em comum
Igatu, Treze Tílias e Barra do Cunhaú não se parecem na paisagem. Um é pedra e história de garimpo, o outro é arquitetura de imigração europeia e o terceiro é rio, mar e pesca.
Mas os três compartilham algo que só percebi depois: nenhum tenta convencer o visitante de nada. As pousadas são pequenas porque são de família, não porque faltou investimento. As ruas são silenciosas porque assim sempre foram.
Talvez o encanto desses lugares escondidos no Brasil esteja justamente nisso. Eles não precisam de mim, do meu comentário, da minha foto. Eu é que precisava deles — de andar num ritmo que não é imposto por agência e de dormir num silêncio que não é vendido como experiência premium.
Fama tem um preço, e às vezes esse preço é a alma do lugar. Esses três parecem ter decidido que não vale a pena pagar. Espero, de verdade, que continuem assim. Se você também procura esse tipo de viagem, veja meus 3 destinos para fugir do turismo de massa no Brasil.
Informações práticas
- Igatu (BA): em Andaraí, na Chapada Diamantina. Aeroportos de Salvador e Vitória da Conquista; carro é essencial. Poço Encantado a cerca de 40 km.
- Treze Tílias (SC): cerca de 200 km do aeroporto de Chapecó e 430 km de Florianópolis. Tirolerfest em outubro.
- Barra do Cunhaú (RN): cerca de 90 km de Natal, pela BR-101 e RN-269. De Pipa, menos de 30 minutos, com balsa em Sibaúma.
- Hospedagem: pequena e familiar nos três destinos; reserve direto com as pousadas.
Distâncias, preços e disponibilidade de hospedagem mudam com frequência — confirme sempre com as pousadas antes de viajar.





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