3 comunidades tradicionais do Brasil onde o tempo passa diferente — Matarandiba, Milho Verde e Piquiatuba

Comunidades tradicionais do Brasil: canal de mangue ao pôr do sol na Ilha de Itaparica, na Bahia

Visitar comunidades tradicionais do Brasil me ensinou que tem viagem que não é sobre chegar a lugar nenhum. É sobre perceber que existe um jeito de viver que segue um calendário diferente do meu.

Nos últimos meses, visitei três lugares onde saberes com mais de cem anos ainda organizam o dia a dia. Não como atração para turista, mas como a forma de vida que essas pessoas conhecem.

Fui como visitante, tentando ocupar o mínimo de espaço possível. E voltei com a sensação de ter visto algo que não vai durar para sempre do jeito que é hoje.

As 3 comunidades tradicionais do Brasil deste roteiro

Matarandiba (BA) é uma pequena ilha na contracosta da Ilha de Itaparica, no município de Vera Cruz, de frente para a Baía de Todos os Santos. A vida gira em torno da pesca artesanal e da mariscagem no mangue, feita quase toda por mulheres. A comunidade tem até uma moeda social própria, a Concha, criada para fazer o dinheiro circular dentro da vila.

Milho Verde (MG) é um distrito do Serro, no Caminho dos Diamantes da Estrada Real. O povoado nasceu da mineração de ouro e diamante no século 18 e guarda ruas de pedra, casario simples e cachoeiras a poucos minutos do centro. Foi ali que nasceu Chica da Silva. A região também é berço do queijo do Serro, cujo modo artesanal de fazer é patrimônio imaterial reconhecido pelo Iphan.

Piquiatuba (PA) é uma comunidade dentro da Floresta Nacional do Tapajós, perto de Santarém. Os moradores vivem da floresta e do rio: pesca, roça, plantas medicinais e saberes passados de geração em geração. Nos últimos anos, a comunidade passou a receber visitantes com turismo de base comunitária, com trilhas guiadas, oficinas e comida regional.

Como chegar

Matarandiba

De Salvador, pegue o ferry-boat do Terminal de São Joaquim até Bom Despacho, em Itaparica, numa travessia de cerca de 45 minutos. Outra opção é a lancha do Terminal Náutico até Mar Grande.

Depois, atravesse a ilha pela BA-001 até a cabeceira da Ponte do Funil. Ali fica a entrada para Matarandiba, com portão controlado, porque uma empresa química opera dentro da ilha. São mais uns 20 minutos de estrada, parte de terra e parte asfaltada, até a vila.

Milho Verde

Voe até Confins, em Belo Horizonte, e siga cerca de 312 km de carro, via Curvelo (BR-040) ou via Serra do Cipó (MG-010). Do Serro até Milho Verde são 14,5 km asfaltados.

Também há ônibus de Belo Horizonte até o Serro, com cerca de 6 horas de viagem. O trecho entre Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras, rumo a Diamantina, é de terra.

Piquiatuba

Voe até Santarém e siga para Alter do Chão, a base mais charmosa para visitar a Floresta Nacional do Tapajós. As comunidades da Flona ficam às margens do rio, e a forma mais bonita de chegar é de barco, saindo de Alter do Chão.

A visita a Piquiatuba precisa ser combinada antes, diretamente com a comunidade ou com um operador de turismo de base comunitária. Não é um passeio que se organiza na hora.

Onde ficar

  • Matarandiba: a vila tem pouca estrutura de hospedagem. O mais prático é ficar em Vera Cruz, em Mar Grande ou em Cacha Pregos, e visitar Matarandiba durante o dia. Meio dia já permite conhecer a vila com calma; um dia inteiro permite incluir um passeio de canoa.
  • Milho Verde: o povoado tem pousadas simples e charmosas, muitas com vista para a serra. No Serro, a 14,5 km, a Pousada da Mariana e a Pousada do Queijo são boas opções.
  • Alter do Chão: a Pousada do Mingote, fundada em 1997, é tocada por uma família do povo Borari e é uma das mais antigas da vila. Em Piquiatuba, a Casa do Eltom, da família Vasconcelos, oferece comida regional, passeios e está ampliando a hospedagem em chalés.

Roteiro de 8 dias pelas comunidades tradicionais do Brasil

Dia 1 — Travessia da baía e chegada a Matarandiba

Saí cedo de Salvador no ferry, vendo a cidade ficar pequena atrás da Baía de Todos os Santos. Atravessei Itaparica de ponta a ponta até a Ponte do Funil e entrei na estrada de terra rumo a Matarandiba.

À tarde, conheci artesãs que transformam fibra natural em cestos e chapéus, um ofício que também segue de geração em geração. Não existe loja de suvenir chamativa em Matarandiba. O que existe é gente trabalhando, e quem entende isso sai dali com muito mais do que qualquer produto comprado.

Dia 2 — Uma manhã com as marisqueiras

Passei a manhã acompanhando o trabalho das marisqueiras no mangue, a distância, sem atrapalhar. Elas aprenderam a ler a maré e o ciclo da lua com quem veio antes delas, sem curso nem manual, só observação e repetição passada de mãe para filha.

Cada gesto de recolher marisco na lama é preciso e automático, depois de décadas de prática.

Perto do fim da manhã, uma delas parou para me explicar como reconhece, pelo cheiro da lama, se o ponto de coleta está bom naquele dia. Disse que aprendeu observando a própria mãe, ainda criança, só repetindo até o corpo memorizar.

Fiquei pensando em quanto conhecimento assim se perde quando uma geração não tem mais quem ensinar.

À tarde, combinei um passeio de canoa com um barqueiro no porto. Da água, dá para ver Cações e a Ilha do Cal, no meio de um silêncio que só é quebrado pelo remo.

Dia 3 — Do mar ao Serro, a terra do queijo

Voei de Salvador para Belo Horizonte e segui de carro até o Serro. Antes de seguir para Milho Verde, passei na Cooperativa do Serro para provar o queijo que deu fama à região.

Dia 4 — O queijo do bisavô e a Igreja do Rosário

Em Milho Verde, visitei uma queijaria de família. Conversei com o produtor enquanto ele virava as peças curando numa prateleira de madeira escurecida pelo tempo.

Ele contou que a receita passou do bisavô para o avô, do avô para o pai, sem uma linha escrita em lugar nenhum. Só o jeito de apertar o soro, a hora certa de virar e a textura que a mão reconhece antes do olho. O queijo tinha um gosto que nenhuma loja de cidade grande consegue reproduzir.

No fim da tarde, subi até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no ponto mais alto do povoado. Ela foi erguida no século 19 por pessoas negras, livres e escravizadas, e é tombada pelo patrimônio estadual. A vista para as montanhas ao redor é a melhor do lugar.

À noite, sentada na praça de pedra, ouvi um grupo de moradores mais velhos ensaiando os cantos da festa religiosa que aconteceria dali a poucos dias. Sem microfone, sem plateia além de mim e de um cachorro deitado no meio-fio.

Dia 5 — Cachoeiras e os preparativos da festa

Pela manhã, fiz a trilha até a Cachoeira do Tempo Perdido, com uma piscina natural de água gelada. Na volta, passei pela Cachoeira do Moinho, a mais fácil de alcançar a partir do centro.

À tarde, visitei a Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres, onde Chica da Silva foi batizada. O povoado já estava nos preparativos da festa, com a procissão e as roupas passadas de geração em geração. Fiquei só observando de longe, sem fotografar ninguém de perto sem pedir antes.

Dia 6 — Alter do Chão e o povo Borari

Voei até Santarém e segui para Alter do Chão, às margens do Tapajós. Me hospedei numa pousada tocada por uma família Borari, povo indígena que vive na região há gerações.

No fim da tarde, vi o pôr do sol no rio, já pensando no barco do dia seguinte.

Dia 7 — Barco até Piquiatuba e trilha na floresta

Saí de barco pela manhã, depois de ter organizado a visita com bastante antecedência e entendido antes o que era permitido e o que não era.

Em Piquiatuba, a vida gira em torno da floresta: plantas medicinais, agricultura tradicional, pesca e construção de canoa. Na trilha, o guia me mostrou as folhas de curuá usadas para cobrir abrigos e as formigas tapiba, esfregadas na pele como repelente natural. Mostrou também a casca da muúba, que dá tinta para tingir e pintar o corpo.

No almoço, comi peixe preparado do jeito tradicional, farinha de mandioca feita na hora e frutas amazônicas que eu nunca tinha visto. Ali, a floresta não é cenário. É a própria estrutura da vida das pessoas.

Dia 8 — A primeira canoa e a roda de histórias

Um morador mais jovem, que aprendia naquela semana a construir a primeira canoa com o avô, me explicou o processo inteiro. A escolha da árvore, o tempo de secar a madeira e o jeito de curvar o casco no fogo sem rachar.

Ele disse que espera repassar esse saber um dia aos próprios filhos, do mesmo jeito que recebeu.

Antes de ir embora, acompanhei, a uma distância respeitosa, uma roda de conversa em que os mais velhos contavam histórias da comunidade. O português vinha cheio de palavras de origem indígena, um lembrete de que aquele conhecimento também vive na fala, não só no gesto.

Leia também: Heranças culturais no Brasil: Mazagão Velho, Prudentópolis e Oriximiná — outras três comunidades que guardam tradições vivas.

Como visitar sem virar parte do problema

Visitar esses três lugares me ensinou que preservar tradição centenária não é sobre nostalgia. É sobre a sobrevivência cotidiana de um jeito de viver que segue funcionando porque faz sentido para quem vive ali.

  • Pesquise antes. Leia um pouco da história e dos costumes locais antes de chegar.
  • Prefira a própria comunidade. Contrate guias, pousadas e passeios locais, em vez de operadoras de fora. Em Matarandiba, procure o grupo de turismo comunitário da vila; em Piquiatuba, a própria comunidade.
  • Pergunte antes de fotografar pessoas, principalmente em festas religiosas e no trabalho das marisqueiras.
  • Leve dinheiro em espécie. Cartão e Pix nem sempre funcionam fora dos centros maiores.
  • Compre o que é feito ali: o artesanato de fibra de Matarandiba, o queijo de Milho Verde e o artesanato da Flona.
  • Reduza seu impacto. Leve seu lixo de volta, não toque em ninhos ou plantas e siga as orientações dos guias na floresta.

Nenhum desses lugares precisa de mim para continuar existindo. Quando se visita um lugar assim, a responsabilidade é sempre do visitante, nunca do lugar.

Quanto custa: tabela de valores

Os valores são referências recentes e mudam conforme a época. Use como ponto de partida e confirme antes de viajar.

Item Valor aproximado
Ferry Salvador → Bom Despacho (passageiro) poucos reais; confira a tarifa atual
Passeio de canoa em Matarandiba combinado direto com o barqueiro no porto
Barco compartilhado Alter do Chão → Flona Tapajós R$ 50 a R$ 100 por pessoa
Guia local na Flona (obrigatório) R$ 30 a R$ 50 por pessoa
Almoço numa comunidade da Flona R$ 40 a R$ 60 por pessoa
Pousada em Alter do Chão (casal) R$ 250 a R$ 350 a diária

O maior gasto é o transporte aéreo entre Bahia, Minas e Pará. Compre as passagens com antecedência.

O que fica depois dessa viagem

O que fica depois de Matarandiba, Milho Verde e Piquiatuba não é uma lista de fotos bonitas.

É a lembrança de que existe, ainda hoje, gente vivendo em ritmo próprio, seguindo calendário próprio. Gente com conhecimento que atravessou séculos sem precisar de internet, de curso ou de certificado para continuar vivo.

Se as comunidades tradicionais do Brasil seguirem existindo do jeito que são, será por causa dessas pessoas, não dos visitantes. Espero, sinceramente, que continue assim por muito tempo. Para mais lugares assim, veja minhas cidades pequenas do Brasil com histórias grandes demais.

Informações práticas

  • Matarandiba (BA): ferry de Salvador até Bom Despacho (cerca de 45 min) e estrada pela BA-001 até a Ponte do Funil. Entrada com portão controlado.
  • Milho Verde (MG): cerca de 312 km de Belo Horizonte; 14,5 km asfaltados a partir do Serro.
  • Piquiatuba (PA): voo até Santarém, base em Alter do Chão e barco até a Flona Tapajós. Visita só com agendamento.
  • Melhor época na Flona: de agosto a dezembro, na seca, para as trilhas. Na cheia, de fevereiro a junho, os passeios são de canoa pelo igapó.
  • Dica geral: leve dinheiro em espécie e prefira serviços das próprias comunidades.

Distâncias, preços e condições de acesso mudam com frequência — confirme sempre com as comunidades e os operadores locais antes de viajar.

Foto de capa: Paulo SP / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

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